FORMAR PARA O INESPERADO: O que as produções brasileiras em Psicologia
dizem sobre Gestão de Riscos e Desastres?
Cecília Ritse de A. Silva
1
Amanda Dias Campos
2
Resumo
Este estudo propõe uma análise crítica das produções acadêmicas brasileiras em
Psicologia sobre Gestão de Riscos e Desastres, com o objetivo de verificar em que
medida esses trabalhos se articulam às diretrizes estabelecidas pelas Referências
Técnicas para a Atuação do Psicólogo na Gestão Integral de Riscos, Emergências e
Desastres (Conselho Federal de Psicologia, 2021), assim como suas implicações para
a formação profissional. Com abordagem qualitativa, foi realizada uma revisão
bibliográfica e documental, abrangendo publicações entre 2018 e 2025. O corpus da
pesquisa inclui nove artigos científicos e 27 Projetos Pedagógicos de Cursos (PPCs)
de Psicologia de universidades federais brasileiras. A análise permitiu a sistematização
dos achados em três categorias: (1) saberes sociais e vivências em território; (2)
atuação em desastres e políticas públicas; e (3) limites e desafios para a atuação
profissional do psicólogo. Os resultados evidenciam a persistente invisibilização de
saberes populares, a escassa inserção da temática nos currículos acadêmicos e a
necessidade de atuação integrada às políticas públicas. Conclui-se que há urgência na
ampliação da formação técnica e ética de psicólogos para atuação em cenários de
emergência, reafirmando o compromisso da Psicologia com os direitos humanos, a
justiça social e a dignidade das populações vulnerabilizadas.
Palavras-chave: Psicologia; Desastres; Formação profissional; Políticas públicas;
Referência Técnica (CFP).
Abstract: This study proposes a critical analysis of Brazilian academic productions in
Psychology on Risk and Disaster Management, aiming to verify the extent to which
these works align with the guidelines established by the Technical References for the
Practice of Psychologists in Comprehensive Management of Risks, Emergencies, and
Disasters (Federal Council of Psychology, 2021), as well as their implications for
professional training. Using a qualitative approach, a bibliographic and documentary
review was conducted, covering publications between 2018 and 2025. The research
corpus includes nine scientific articles and 27 Psychology Course Pedagogical Projects
(PPCs) from Brazilian federal universities. The analysis allowed the systematization of
the findings into three categories: (1) social knowledge and experiences in the territory;
(2) work in disasters and public policies; and (3) limits and challenges for the
professional practice of psychologists. The results highlight the persistent invisibility of
1
Graduandas em Psicologia - Universidade Federal de Rondônia/UNIR. E-mail:
ceciliaritse.unir@gmail.com. Contato/Telefone: 69984140957. Curriculo lattes:
http://lattes.cnpq.br/8931950497014691. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-6236-878X
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Graduandas em Psicologia - Universidade Federal de Rondônia/UNIR. E-mail:
Unirmandaddias@gmail.com. Contato/Telefone: 69992678650. Curriculo lattes:
http://lattes.cnpq.br/5453654234040757. Orcid.: https://orcid.org/0009-0003-9302-3075
popular knowledge, the limited inclusion of the topic in academic curricula, and the need
for integrated action with public policies. The conclusion is that there is an urgent need
to expand the technical and ethical training of psychologists for work in emergency
settings, reaffirming Psychology's commitment to human rights, social justice, and the
dignity of vulnerable populations.
Keywords: Psychology; Disasters; Professional training; Public policies; Technical
Reference (CFP).
INTRODUÇÃO
As mudanças climáticas tornaram-se uma preocupação central na
contemporaneidade. Diversas áreas do conhecimento têm se debruçado sobre o
aumento dos eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e intensos
(Crociari, 2025). Como destacam Sulaiman et al. (2024), embora façam parte de ciclos
naturais, esses fenômenos são intensificados por ações humanas, como a
globalização, o desmatamento e a expansão urbana desordenada. Tais intervenções
agravam os impactos ambientais, ampliam a vulnerabilidade de determinadas regiões
e comprometem a infraestrutura, além da saúde física e mental das populações
afetadas.
A Organização Mundial da Saúde (BRASIL, 2024) estima que as emergências
climáticas poderão causar aproximadamente 250 milhões de mortes entre 2030 e 2050.
Entende-se que esse impacto tende a ser ainda mais acentuado nos países menos
desenvolvidos, onde se observa não apenas maior desigualdade no acesso a recursos
básicos e serviços de saúde (BRASIL, 2024), mas também a falta de infraestrutura
adequada e planejamento estratégico para enfrentar os desafios impostos por situações
de desastre. Como consequência, as populações mais vulneráveis dessas regiões
enfrentam uma carga desproporcional dos efeitos adversos das mudanças climáticas
(Sulaiman et al., 2024) exigindo das instâncias políticas e sociais novas formas de atuar
nos contextos de desastres, em vista de prevenir e mitigar seus possíveis impactos.
No Brasil, a seca histórica que atingiu grande parte da região amazônica em
2023 e as enchentes devastadoras que assolaram o Sul do país em 2024, em especial
o Rio Grande do Sul, exemplificam eventos cataclísmicos que evidenciam a urgência
de planejamentos institucionais voltados à antecipação de emergências, bem como à
elaboração de estratégias adaptadas às particularidades de cada território (CFP, 2021).
Diante de uma realidade marcada por múltiplas ameaças, os “estudos deveriam se
orientar para compreender causalidades, dinâmicas, interações e efeitos numa lógica
de cadeia de impacto no contexto do território, considerando os elementos expostos e
sua vulnerabilidade” (Sulaiman et al., 2024, p. 05).
Nesse contexto, a inserção da Psicologia na área de estudo sobre desastres
ocorreu de forma tímida, tendo inicialmente seus olhares voltados apenas para o
indivíduo já acometido por um desastre, promovendo atendimento aos sobreviventes e
concentrando-se no trauma e nas reações individuais ao estresse causado por eventos
extremos, sendo essa abordagem fortemente influenciada pelo modelo biomédico,
predominante à época. Por muitos anos os órgãos responsáveis por agir em contextos
de desastres estiveram focados em “suprir três principais eixos, sendo eles: a provisão
de abrigo, alimentação e imunização contra epidemias. Embora essas ações fossem
fundamentais, acabaram por relegar a assistência psicológica a um plano secundário”
(CFP, 2021, p. 27).
Assis e Ferreira (2013) destacam que, apenas em 1987 a psicologia brasileira
envolveu-se no campo riscos emergência e desastres, com o acidente nomeado césio-
137, ocorrido em 13 de setembro de 1987, em Goiânia, tido como o maior acidente
radioativo do mundo, fora de uma usina nuclear. A partir desse evento, a Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade
Católica de Goiânia (UCG) se uniram com um grupo de psicólogos cubanos para dar
suporte às vítimas desse desastre em 1992. Ao passo que a psicologia brasileira se
movimentava para ocupar cada vez mais espaço nessa área do saber, outros avanços
surgiam na esfera global.
Destacam-se como datas importantes o Marco de Ação de Hyogo, o qual visava
a redução do risco de desastres entre 2005-2015, pactuado a partir do encontro de
diversos países membros da ONU. Posteriormente tem-se o marco de Sendai ( 2015-
2030), adotado a partir da conferência Mundial sobre a Redução do Risco de
Desastres no qual os países acordaram em completar a avaliação e revisão da
implementação do Marco de Hyogo e ampliar suas ações para o cenário posterior a
2015 (CFP, 2021). Os marcos de Hyogo e Sendai postulam que para a redução desses
riscos, será necessária a implementação de diversas medidas econômicas, sociais,
estruturais, ambientais e muitas outras. Implica ainda a necessidade da erradicação da
pobreza, melhoria da educação e redução das desigualdades.
Ao se tratar da Psicologia das Emergências e Desastres, é comum que o
conceito seja compreendido de uma forma abstrata gerando dúvidas quanto à sua real
abrangência e aplicação. Isso se deve, em parte, ao fato de que esse campo é
relativamente recente dentro da Psicologia e tem suas raízes em outras áreas do
conhecimento, como a Geografia e a Sociologia, as quais se originaram nas décadas
de 1950 e 1970, respectivamente.
Nesse sentido, apropriando-se de tudo que foi construído e debatido ao longo
desses anos de estudo e, sobretudo, delimitando as lentes pelas quais a temática foi
abordada, utiliza-se a concepção de desastre expressa pela Comissão de Psicologia
das Emergências e Desastres do Conselho Federal de Psicologia (CFP), a qual
compreende um desastre como:
[...] uma ruptura do funcionamento habitual de um sistema ou comunidade,
devido aos impactos ao bem-estar físico, social, psíquico, econômico e
ambiental de uma determinada localidade. Tal evento afeta um grande número
de pessoas, ocasionando destruição estrutural e/ou material significativo e
altera a geografia humana, provocando desorganização social pela destruição
ou alteração de redes funcionais. ( CFP, 2015)
3
A Referências técnicas para atuação de psicólogos na gestão integral de riscos,
emergências e desastres compreende ainda que um desastre não se constitui apenas
de um elemento, mas de um conjunto de fatores que somados potencializam tal cenário,
sendo estes: ameaças, exposição, condições de vulnerabilidade e insuficiente gestão
integral de riscos. Evidencia-se portanto que para estudar os contextos de riscos e
desastres é necessário adentrar o contexto no qual ele ocorre, sendo estes questões
sociais, políticas e culturais. Assim, a abordagem denominada “Gestão Integral de
Riscos, Emergências e Desastres” representa um esforço coletivo para estruturar ações
teóricas e práticas voltadas à prevenção e enfrentamento de situações críticas.
Como evidenciado anteriormente, por muito tempo a Psicologia não reconhecia
a gestão integral de riscos como uma área potencial de atuação. Quando essa
possibilidade emergiu, a profissão ainda estava circunscrita ao paradigma clínico
tradicional, limitando-se a gerenciar impactos psicológicos individuais, como sintomas
de ansiedade e depressão, ou a avaliar situações de indivíduos vulneráveis ao
desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) (CFP, 2021).
3
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Curso Psicologia da Gestão Integral de Riscos e Desastres.
Módulo II: O Mapa dos Desastres. Disponível em:
https://site.cfp.org.br/orientapsi-novo-modulo-mapa-dos-desastres-no-brasil-esta-no-ar/Conselho Referências
Técnicas para atuação de psicólogas (os) na Gestão Integral de Riscos, Emergências e Desastres 98 Federal de
Psicologia. 21/12/2015
Contudo, após revisões epistemológicas e a influência da Psicologia Social,
tornou-se imprescindível ampliar o entendimento da categoria, partindo do
“reconhecimento que desastres não ocorrem em um vazio social, pois estão inseridos
em estruturas sociais existentes” (CFP, 2021, p.48).
Diante dessa perspectiva, o Conselho Federal de Psicologia estabelece, na
Nota Técnica 22/2024, diretrizes atualizadas para a atuação de psicólogos nos
contextos de emergências, considerando as especificidades das fases de preparação,
resposta e reconstrução em desastres. Caracteriza-se, na fase de preparação, todas
as ações voltadas para a prevenção e planejamento de estratégias para uma resposta
eficaz a desastres, articuladamente com outras entidades blicas; a fase de resposta
inclui articulações para promover a saúde mental e integral da população, a redução
dos danos psicossociais causados pelos sinistros, e o oferecimento dos primeiros
atendimentos psicológicos a indivíduos em sofrimento significativo; e a fase de
reconstrução refere-se à garantia de continuidade das práticas implementadas, por
meio da articulação com os serviços públicos, bem como a oferta de serviços de
suporte emocional.
À luz dessa perspectiva, observa-se que, sobretudo “diante da urgência de lidar
com desastres e emergências em saúde pública, políticas e programas verticais e
homogeneizantes são implementados de maneira autoritária” (Noal et al., 2024, p.02).
No âmbito da Psicologia, a urgência em atender às populações pode refletir uma ideia
reducionista e de patologização do sofrimento humano, configurando uma atuação
que reforça estigmas e violências e que pode perpetuar práticas assistencialistas - que
não transformam concretamente a realidade desses indivíduos (CFP, 2021).
Compreende-se, então, que o papel da Psicologia no contexto humanitário constitui-
se pelo reconhecimento do sofrimento enquanto parte do processo de reconstrução,
bem como pela vinculação com o território e pela consideração da religiosidade e de
outras formas de expressão da subjetividade.
Infere-se a necessidade de refletir sobre o papel das graduação, e da Psicologia
como um todo, na área de Riscos, Emergências e Desastres, especialmente diante
das mudanças climáticas, do debate sobre desastres naturais e da crescente
visibilidade da atuação psicológica. Discutir os impactos ambientais nesse contexto é
mais que um aprofundamento teórico: trata-se de um compromisso ético da profissão,
conforme o III Princípio Fundamental do Código de Ética do Psicólogo: “O psicólogo
atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade
política, econômica, social e cultural” (CFP, 2005, p. 7).
Diante disso, evidencia-se a necessidade de analisar as produções acadêmicas
em Psicologia sobre Gestão de Riscos e Desastres, a fim de avaliar suas implicações
para a formação profissional, considerando as diretrizes das Referências Técnicas
para a Atuação do Psicólogo na Gestão Integral de Riscos, Emergências e Desastres
(2021). Objetiva-se averiguar as produções existentes antes da publicação da
Referência Técnica e verificar se, após a publicação, um movimento consistente
nas produções acadêmicas em prol da produção de conhecimento sobre a temática.
Ademais, busca-se compreender em que medida as Instituições de Ensino Superior
vêm desenvolvendo iniciativas sistemáticas para capacitar e inserir profissionais
qualificados nessa área de atuação.
METODOLOGIA
Para a construção deste estudo, foi realizada uma revisão de literatura de
caráter bibliográfico e documental, com abordagem qualitativa. O objetivo foi identificar
e analisar produções científicas que abordam a atuação de profissionais da Psicologia
em contextos de riscos e emergências de origem ambiental. O recorte temporal
adotado considerou o período de ano de publicação das Referências Técnicas para
Atuação de Psicólogas(os) na Gestão Integral de Riscos, Emergências e Desastres,
abrangendo os três anos anteriores e os três anos subsequentes, delimitando o
período de análise entre 20182025.
O levantamento bibliográfico foi conduzido por meio da utilização dos seguintes
descritores: Psicologia em desastres; “Desastres ambientais e Psicologia”; “Atuação
do psicólogo em desastres”; “Atuação do psicólogo e desastres”; “Psicologia e
desastres naturais”. Foram estabelecidos como critérios de inclusão: produções
acadêmicas que, em seus resumos, abordassem temáticas relacionadas a Psicologia
e gestão de riscos, desastres e emergências; bem como desastres naturais; textos
publicados no período de 2018 e 2025; e textos redigidos em língua portuguesa.
Quanto aos critérios de exclusão, foram desconsiderados artigos que tratavam da
pandemia como forma de desastre, bem como estudos que versassem sobre eventos
não relacionados especificamente a desastres ambientais; além de produções
classificadas como revisão bibliográfica.
De acordo com os critérios estabelecidos, foram identificados, inicialmente, 66
artigos que atendiam aos descritores previamente definidos. Contudo, após a triagem
baseada na análise de títulos e resumos, tornou-se necessária a categorização dos
artigos conforme as temáticas abordadas, visando alinhar a seleção aos objetivos da
pesquisa. Com a aplicação dos filtros definidos nos critérios de inclusão e exclusão,
foi selecionado um corpus final composto de nove artigos que atenderam aos
requisitos de pertinência temática, recorte temporal e linguagem. Cabe destacar que
a principal dificuldade encontrada no processo de seleção foi a necessidade de
exclusão de estudos classificados como revisão bibliográfica, que embora relevantes,
não se adequaram à metodologia proposta neste trabalho.
Para viabilizar a sistematização e análise dos estudos selecionados, foi
elaborado um quadro descritivo contendo as seguintes informações: fonte de acesso,
título do artigo, ano de publicação, periódico ou revista, tipos de acesso (aberto ou
restrito) e palavras-chave.
Na etapa documental da pesquisa, foi realizada a recuperação dos Projetos
Pedagógicos dos Cursos (PPCs) de Psicologia das universidades federais brasileiras.
No entanto, devido às limitações de prazo estabelecidas pelo cronograma de
execução da pesquisa, a busca foi restringida às universidades situadas nas capitais
brasileiras, partindo do pressuposto de que essas instituições atuam como pólos de
referência acadêmica e formativa para os demais campi de sua rede. A coleta de
documentos foi realizada por meio dos sites oficiais de cada universidade, priorizando
o acesso a informações atualizadas e de domínio público. Reconhece-se que a
limitação geográfica pode influenciar a abrangência dos dados, mas a seleção buscou
equilibrar viabilidade e representatividade no contexto do estudo.
Para otimizar o processo de levantamento documental, as cinco regiões do país
foram distribuídas entre as duas pesquisadoras responsáveis pela investigação. Nos
portais institucionais, foram consultados todos os documentos oficiais disponíveis para
acesso público, tais como: PPCs, diretrizes e matrizes curriculares dos cursos. Como
estratégia de busca, foram utilizadas palavras-chave relacionadas à temática da
pesquisa, entre elas ambiente, emergências, desastres, biodiversidade e, em alguns
casos específicos, Amazônia (especialmente para universidades dos estados
correspondentes). Os resultados foram sistematizados em um quadro descritivo que
incluiu: Nome da universidade; Palavra-chave utilizada; Conteúdos identificados; Ano
de publicação do documento analisado.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Após a seleção por títulos e resumos e a aplicação dos critérios previamente
definidos, os nove artigos selecionados para análise foram examinados
sistematicamente e fichados, com o objetivo de compreender o contexto das temáticas
abordadas, utilizando um roteiro de leitura estruturado. Dentre os principais
questionamentos orientadores da leitura, destacaram-se: qual o contexto dos
desastres e a atuação do psicólogo?; quais as convergências e divergências em
relação às Referências Técnicas do Conselho Federal de Psicologia (CFP); ,
Paralelamente à revisão bibliográfica a análise documental dos PPCs de Psicologia
revelou que 21 universidades federais abordam a temática da psicologia ambiental,
seja de forma direta - por meio de disciplinas optativas ou laboratórios de pesquisa
dedicados ao tema - ou de maneira transversal, integrando seus princípios em outras
disciplinas da matriz curricular.
Com base na análise aprofundada dos artigos e a correlação entre a revisão
bibliográfica e os documentos institucionais , foi possível organizar os principais
achados da pesquisa em três categorias interpretativas: 1) O saber social e as
vivências em território; 2) Atuação em contextos de desastres e políticas públicas e 3)
Lacunas e desafios para a atuação profissional do psicólogo.
O saber social e as vivências em território
Ao analisarmos as vivências de comunidades acometidas por desastres,
podemos compreender o território como um espaço de identidade e afeto, uma vez
que toda experiência humana ocorre em um espaço físico, onde se formam laços
afetivos que conferem significado às vivências (Rabelo; Lima, 2022). Nesse sentido,
destaca-se que a percepção do psicólogo sobre essas populações deve considerar
como elas compreendem o espaço e os impactos que essa percepção acarreta.
Essa leitura é fundamental, pois influencia diretamente a decisão de
permanecer, abandonar ou retornar a uma área de risco. Ao compreendermos que “a
identidade de lugar reflete uma parte do ‘eu’” (Rabelo; Lima, 2022, p. 10), entendemos
que o abandono de um espaço carregado de afetividade implica o abandono de uma
parte da identidade do sujeito. O Conselho Federal de Psicologia (2021, p. 60) reforça
essa perspectiva ao afirmar que “as estratégias de intervenção em desastres devem
estar articuladas às características de um determinado local e/ou de uma
comunidade”. Assim, o espaço físico pode ser compreendido como um lugar de
produção de sentido, em que residir em uma zona de risco não se reduz a um dado
técnico, mas se apresenta como expressão de resistência e pertencimento.
Quando analisamos contextos de risco e desastre sob uma perspectiva social
da Psicologia, observamos uma prática que favorece a ampliação da consciência
sobre o território e os afetos ali construídos, bem como os riscos associados.
Considerando que “desastres não ocorrem em um vazio social, pois estão inseridos
em estruturas sociais existentes” (Rabelo; Lima, 2022, p. 48), a Psicologia, ao
apropriar-se de um saber social, promove transformações a partir do reconhecimento
da historicidade e das relações comunitárias.
As produções analisadas evidenciam a invisibilização dos saberes sociais na
gestão de riscos por parte das equipes que atuam em contextos de desastres.
Frequentemente, os conhecimentos das populações atingidas são desconsiderados
no momento das intervenções, o que gera resistência e reduz a efetividade das ações
técnicas. Rabelo e Lima (2022) destacam ainda a adoção de soluções padronizadas
e descontextualizadas, que ignoram a subjetividade dos indivíduos como ocorre
nos encaminhamentos apressados para abrigos e casas de passagem, muitas vezes
considerados soluções definitivas para a problemática das moradias em áreas de
risco.
O que muitas vezes o se reconhece é que, para as comunidades situadas
em áreas vulneráveis, o risco não é desconhecido. Pelo contrário, ele é parte do
cotidiano, enfrentado por meio de saberes populares e manejos próprios. Diante disso,
a atuação do psicólogo deve respeitar as práticas culturais e espirituais das
comunidades atingidas, valorizando seus modos de cuidado. Conforme orienta o
Conselho Federal de Psicologia (2021):
Em situações de emergência, espera-se da Psicologia uma sensibilidade em
relação à cultura e demais recursos simbólicos o que inclui experiências
religiosas, modalidades de cuidado comunitárias e concepções morais,
presentes nas comunidades atingidas (CFP, 2021, p.75 ).
Dessa forma, a atuação nesses contextos deve respeitar as práticas culturais e
espirituais das comunidades atingidas, valorizando seus saberes e modos de cuidado.
Assim, torna-se evidente que a postura do psicólogo deve favorecer o protagonismo
dos sujeitos na elaboração de suas vivências diante de um desastre. O cuidado
precisa ser horizontal, construído em conjunto com a comunidade, evitando-se a
imposição de modelos externos e padronizados.
As análises apontam que, mesmo após as remoções, muitas pessoas retornam
às áreas de risco como forma de reivindicação por moradia digna e pelo
reconhecimento da violação de seus direitos fundamentais especialmente o direito
à moradia, previsto no artigo da Constituição Federal (BRASIL, 1988). Rabelo e
Lima (2022) enfatizam o impacto das remoções forçadas:
Remoções forçadas e reassentamentos - processos estes mediados pelo
Estado -, geralmente são justificados como formas de evitar desastres,
considerando que a maioria das ocupações tidas como irregulares no Brasil
se encontram em área de risco de desastres. Comumente famílias são
removidas da sua localização de origem, sem que alternativas adequadas de
moradia a essas famílias sejam oferecidas, contrariando o que é previsto em
tratados internacionais dos quais o Brasil faz parte ( Rabelo; Lima, 2022,
p.12).
O retorno às áreas classificadas como de risco não deve ser interpretado
apenas como resistência irracional ou desinformação, mas como protesto diante da
precariedade das alternativas habitacionais oferecidas. Trata-se, portanto, de uma
ação política e subjetiva, que contesta o modelo tradicional de gestão de riscos e
reafirma o território como espaço de memória, identidade e, sobretudo, de direitos.
A pobreza atravessa de forma constante as situações de risco e desastre, uma
vez que, historicamente, as populações atingidas são também aquelas em contextos
de exclusão social. Silva e Menezes (2020, p. 513) identificam o fator econômico como
um dos principais entraves para o acesso a territórios fora das zonas de risco. Mesmo
quando assistidas pelo Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC),
muitas famílias recebem apenas um auxílio-moradia, insuficiente para garantir
condições dignas fora das áreas vulneráveis.
Dessa forma, risco e pobreza estão entrelaçados, evidenciando que a gestão
de desastres no Brasil envolve não apenas os riscos físicos, mas também os riscos
sociais impostos à população empobrecida. Segundo Silva e Menezes (2020, p. 512),
a atuação da Defesa Civil tem se concentrado em populações pobres, historicamente
marginalizadas e deslocadas para áreas periféricas e degradadas dos centros
urbanos.
Portanto, torna-se inviável debater sobre populações que residem em áreas
sob iminência de desastres sem abordar a desigualdade social. Desastres afetam de
forma diferenciada pessoas ricas e pobres. A Referência Técnica do CFP (2021)
propõe uma reflexão crítica sobre a seletividade dos espaços e comunidades que
recebem atenção e cuidado, além de alertar sobre o risco de ações que reforcem
exclusões e marginalizações históricas.
Atuação em contextos de desastres e políticas públicas
No que diz respeito à atuação profissional frente a desastres, o Conselho
Federal de Psicologia (2021) destaca que os serviços prestados por psicólogos devem
estar articulados com uma rede diversificada e capacitada, incluindo diferentes atores
e instituições, e priorizar ações aplicáveis no médio e longo prazo. Nesse contexto,
entende-se que as intervenções em situações de desastre precisam ser integradas às
políticas públicas das esferas municipal, estadual e federal - como o Sistema Nacional
de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC), Sistema Único de Assistência Social (SUAS)
e Sistema Único de Saúde (SUS) -, visando à criação de uma rede que atue desde a
prevenção até a reconstrução pós-desastre.
O SINPDEC constitui uma instituição de extrema importância no contexto de
sinistros, pois sua estrutura visa à redução de riscos e à gestão de desastres em todo
o território nacional (BRASIL, 2007). Além disso, sua função primordial é mediar a
comunicação entre comunidades vulneráveis e o Estado (Alves; Menezes, 2024).
Nesse sentido, compreende-se que essa instância desempenha um papel
fundamental na forma de enunciar e gerenciar riscos, refletindo-se diretamente na
relação dos indivíduos com suas comunidades e territórios em risco.
As produções analisadas apontam críticas às políticas públicas brasileiras
voltadas para situações de desastre, pois, embora essas políticas prevejam
mecanismos de prevenção e proteção para pessoas e territórios assistidos, na prática,
as ações adotadas priorizam medidas imediatistas, frequentemente impostas de
maneira vertical e sem diálogo com as comunidades afetadas. Como destacam Noal
et al. (2024, p.12), “as políticas nacionais e internacionais [...] concentram-se na fase
de resposta, tornando-se menos efetivas ao abordar consequências em detrimento
das causas”.
Diante disso, constatou-se que as estratégias adotadas pelos profissionais
envolvem a produção de conhecimentos, consolidados a partir das experiências
vivenciadas no contexto de resposta, com o intuito de descrever e analisar as
percepções e os mecanismos utilizados por essas populações para lidar com o risco,
bem como de mapear as vulnerabilidades manifestadas nos territórios informações
que poderiam servir como base para a elaboração de estratégias preventivas. Apesar
de serem medidas tomadas na fase de pré-desastres, os profissionais que estiveram
presentes em contextos de desastres, objetivaram a produção de espaços e
documentos que pudessem fomentar as discussões entre os moradores e capacitar
futuros agentes da área, como apontam Noal et al.,
[...] o documento contemplou também fatores de risco e de proteção
identificados, além de recomendações para o Bem-Viver indígena em
resposta ao desastre, com destaque a grupos de escuta e rodas de conversa,
elaboração de materiais informativos, ações de fortalecimento territorial, bem
como premissas e diretrizes para pautar essas ações (Noal et al., 2024, p.08)
Nesse sentido, observa-se que a atuação da psicologia na fase de prevenção,
conforme prevista pela Referência Técnica encontra-se permeada por impasses de
gênese institucional. As produções apontam para práticas profissionais que
demandam grandes esforços para a realização, visto que a prática contextualizada,
que priorizem as vivências e subjetividades das comunidade, se constituem enquanto
elementos imprescindíveis para o acolhimento e cuidado integral de pessoas atingidas
por desastres, principalmente na fase de pré-desastre. Entretanto, percebe-se que os
profissionais têm se empenhado em construir novas formas de se inserir nesses
contextos, e denunciam a necessidade de não negligenciar as fragilidades que tendem
ao agravamento.
A perspectiva que adotamos a seguir diz respeito à atuação voltada para as
fases de resposta e reconstrução diante dos desastres. Historicamente, a intervenção
psicológica nesses contextos foi marcada pelo paradigma da psicologia tradicional,
com ênfase em práticas clínicas centradas no sofrimento individual (Barros; Sousa;
Campos; 2021). No entanto, essa abordagem vem se transformando à medida que se
reconhece que os desastres também envolvem dimensões sociais e coletivas, que
devem ser gerenciadas em prol da justiça social (CFP, 2021).
As produções destacam o esforço dos psicólogos em construir estratégias
articuladas aos serviços blicos. A falta de planos de prevenção e ação diante de
desastres dificultou práticas que considerassem a resiliência e a resistência
comunitária, aspectos fundamentais segundo o CFP. Assim, mesmo antes das
Referências Técnicas, a atuação em saúde e assistência era marcada por
incertezas, mas também por esforços para enfrentar a complexidade dos desastres.
Como apontam Noal et al. (2024, p.03), “[...] tal atuação, no entanto, implica no
tensionamento paradigmático sobre o saber psicológico vigente, para romper
estruturas previamente estipuladas sobre corpo, território e saúde”.
Para além das práticas construídas em formato multidisciplinar, as intervenções
em contextos de emergências apresentam diversas especificidades que demandam
dos agentes atuantes um conjunto de respostas que sejam multisetoriais e que
possam proteger e melhorar a saúde mental dessas pessoas (Iasc, 2007). Conforme
apresentado por Pereira, Vivian, Souza e Vasconcelos (2024, p. 318) “A coordenação
de redes de apoio, a gestão eficaz dos recursos e a adaptação rápida aos desafios
emergentes destacam-se como elementos-chave desse processo de resposta ao
desastre”.
A resposta aos desastres e emergências, conforme apresentado pelo Comitê
Permanente Interagências, deve priorizar os cuidados rápidos, intersetoriais e básicos
de atendimento à saúde das populações atingidas. O suprimento de necessidades
básicas, como água, alimentos e roupas visam acolher e garantir os direitos básicos
de preservação da vida e dignidade. A seguir desse aspecto, os próximos passos a
serem tomados devem sempre priorizar o contato com a família e fortalecimento das
comunidades, visando possibilitar o desenvolvimento de estratégias de resiliência e
resistência.
Diante disso, compreende-se que ao desenvolver ações acolhedoras, que
assegurem os direitos humanos e promovam os sentidos de fortalecimento entre
sujeitos, às necessidades de atendimento para o sofrimento mental significativo seja
identificado em menor parcela dos atingidos. Nesse sentido, os primeiros cuidados
psicológicos a serem desenvolvidos visam o “[...] apoio e cuidado prático não
invasivos; avaliar necessidades e preocupações; ajudar as pessoas a suprir suas
necessidades básicas; escutá-las, sem pressioná-las a falar; confortá-las e ajudá-las
a se sentirem calmas; auxiliá-las [...] e protegê-las de danos adicionais” (Pereira et al.,
2024, p.307).
Assim, os cuidados intensivos e especializados voltados para o atendimento de
casos graves de sofrimento devem ser oferecidos para aquela parcela que, mesmo
diante do apoio básico e intermediário fornecidos, se demonstraram insuficientes;
sendo então fornecidos nos Centros de Atenção Psicossocial e outros ambulatórios
especializados e/ou profissionais liberais (CFP, 2021).
À luz dessas reflexões, considera-se essencial fortalecer redes locais como
SUS e SUAS nos processos de reconstrução e no pós-desastre, para garantir a
continuidade do acolhimento e da proteção à população. Pereira et al. (2024) ilustram
isso ao mostrar como, no Rio Grande do Sul, estratégias iniciais de professores e
voluntários foram gradualmente substituídas pelos serviços blicos, evidenciando
respostas rápidas e cooperação para evitar a sobrecarga do sistema. Compreende-
se, por fim, que as práticas em contextos de desastre tendem a se alinhar às
Referências Técnicas da psicologia, embora produções anteriores à sua publicação
evidenciassem falhas governamentais e visões distorcidas desses contextos,
destacando que tais abordagens ignoram as intersecções como pobreza,
desigualdades, raça e gênero, revelando uma postura estatal omissa diante de sua
responsabilidade (Silva; Silva; Barufi, 2023).
A análise dos artigos mostra consonância com as diretrizes do CFP, ao
enfatizar práticas contextualizadas e humanitárias. As intervenções promovem a
consciência coletiva e fortalecem as respostas comunitárias à crise. Além das ações
humanitárias, os textos reafirmam o papel da psicologia no cuidado com os aspectos
subjetivos e territoriais, ressaltando a importância de políticas blicas efetivas,
“ancoradas nas comunidades como estratégia fundamental para evitar que a
assistência se reduza a práticas assistencialistas” (CFP, 2021, p. 76).
Desafios e limites para a atuação profissional do psicólogo
A atuação do profissional de Psicologia tem se consolidado como elemento
fundamental na gestão integral de riscos e emergências. Por meio de uma abordagem
sensível e socialmente contextualizada, sua atuação em cenários de desastres
orienta-se para as demandas concretas das comunidades, visando à sua integração
e ao fortalecimento de suas capacidades de resistência e reconstrução.
Contudo, os psicólogos têm enfrentado dificuldades estruturais para exercer
plenamente suas funções. Como destacam Silva, Silva e Barufi (2023), casos em
que profissionais de outras áreas consideram desnecessária a contribuição da
Psicologia. Além disso, a própria categoria não está formalmente incluída na estrutura
de gestão de riscos e desastres da Defesa Civil, nem é reconhecida como parte
integrante dos serviços de proteção, embora atue em políticas públicas como o
Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) (CFP,
2021).
Nesse contexto, evidencia-se que o crescente relevo da temática e a urgência
decorrente de eventos catastróficos demandam da categoria profissional,
primordialmente, o reconhecimento institucional de sua contribuição para as
estratégias de prevenção e mitigação; e o desenvolvimento de protocolos normativos
e práticas sistematizadas capazes de potencializar a atuação dos profissionais
envolvidos. Conforme demonstram Barros, Sousa e Campos (2021), muitos
psicólogos manifestam apreensão quanto à atuação em contextos emergenciais, seja
pela percepção de despreparo para enfrentar as complexas demandas de sofrimento
psíquico, seja pela consciência da própria vulnerabilidade enquanto agentes inseridos
em cenários críticos.
Sob essa perspectiva, constata-se que os desafios estruturais inerentes à
atuação psicológica em emergências estão associados à fragilidade na formação
acadêmica, que limita o número de profissionais qualificados na área; e à manutenção
de práticas baseadas em referenciais teóricos desatualizados, fatores que,
combinados, podem comprometer a eficácia das intervenções e perpetuar ciclos de
vulnerabilidade (CFP, 2021).
De fato, como demonstram Barros, Sousa e Campos (2021), a graduação em
Psicologia não contempla formação específica para atuação em emergências e
desastres. A assistência psicológica em contextos de sinistro exige capacitação
especializada para o desenvolvimento de intervenções individualizadas. No entanto,
esse conteúdo é abordado de maneira transversal e superficial nas grades
curriculares, sem a profundidade necessária para preparar os profissionais às
demandas complexas do campo.
A etapa documental da pesquisa foi essencial para compreender os aspectos
analisados, evidenciando que a atuação profissional deve se apoiar em uma base
teórica sólida, construída desde a graduação. Observa-se, porém, que as
universidades federais ainda apresentam lacunas quanto à atualização e à inserção
de temas contemporâneos nos currículos de Psicologia. As Diretrizes Curriculares
Nacionais (DCNs), revisadas em 2023, destacam no parágrafo VIII a exigência de
“transversalidade temática”, orientando os cursos a abordarem conteúdos como
Direitos Humanos, Educação Ambiental e Relações Étnico-raciais, com vivências e
reflexões sistematizadas (BRASIL, 2023, p. 09).
A pesquisa documental foi conduzida por meio da análise dos Projetos
Pedagógicos de Curso (PPC) de 27 universidades federais brasileiras. Dentre essas,
14 apresentam planos pedagógicos significativamente desatualizados, sem a oferta
de disciplinas voltadas à Psicologia Ambiental ou sem a devida inserção de conteúdos
relacionados às emergências e desastres, limitando o aprofundamento dessas
discussões no âmbito da formação acadêmica. É importante destacar que o recorte
da pesquisa restringiu-se às universidades localizadas nas capitais dos estados
brasileiros, o que impede a generalização dos resultados para todo o território
nacional. Ainda assim, os achados bibliográficos corroboram a situação observada,
conforme aponta o seguinte relato: “[...] essa capacitação, no Brasil, ainda é um pouco
falha, principalmente por não ser abordada durante os anos de graduação em
Psicologia” (Silva; Silva; Barufi; 2023, p.10).
A substituição de disciplinas obrigatórias por optativas no que concerne à
temática de crises socioambientais resulta na formação de profissionais com
conhecimentos fragmentados e despreparados para atuar em contextos complexos,
como os desastres de natureza socioambiental. Essa lacuna formativa foi evidenciada
pela atuação de psicólogos voluntários no Rio Grande do Sul, os quais, em sua
maioria, demonstraram carência de capacitação específica para intervir em tais
cenários. Conforme destacado por Pereira et al. (2024), a ausência de bases teórico-
práticas consolidadas obrigou os profissionais a buscarem materiais de forma urgente
e improvisada, a fim de fundamentar suas intervenções durante a crise.
Para além das deficiências na formação inicial, os programas de capacitação
continuada para atuação em contextos de desastre mostram-se igualmente
insuficientes, perpetuando lacunas formativas críticas. Como evidenciado por Barros,
Sousa e Campos (2021, p.12), “essas formações, em sua maioria, ocorrem nas
regiões Sul e Sudeste do Brasil, onde poucos profissionais da região Norte
conseguem ter acesso”, revelando disparidades regionais que comprometem a
preparação técnica nacional.
Embora a graduação em Psicologia forneça bases teórico-práticas essenciais
e desenvolva competências profissionais gerais, a especificidade dos saberes
requeridos para atuação em emergências e desastres demanda formação
especializada complementar. Essa carência formativa específica limita
significativamente a eficácia das intervenções, uma vez que contextos de desastre
exigem não apenas habilidades psicológicas consolidadas, mas também
conhecimentos cnicos sobre gestão de crises, protocolos de atendimento
psicossocial e estratégias de prevenção comunitária.
Dessa forma, a lacuna aqui destacada evidencia que necessidade de pensar
possíveis revisões no contexto da graduação em psicologia, visto que a temática tem
se mostrado coerente e imediata, exigindo da categoria novas formas de se posicionar
e atuar em contextos frente aos desastres. Acredita-se que o oferecimento de
disciplinas optativas ou laboratórios de estudo ainda não sejam suficientes para
garantir que os profissionais de psicologia consigam compreender a complexidade
exigida da categoria em situações frente aos desastres.
Além disso, observa-se que a falta de capacitação continuada, de planos de
contingência e a precariedade da infraestrutura dificultam o trabalho integrado das
equipes multidisciplinares. Os estudos apontam que, em desastres, é essencial uma
atuação articulada das redes de atenção para evitar sobrecarga e garantir ações
preventivas eficazes. Destaca-se, assim, “[…] a importância de treinar e capacitar a
população no enfrentamento de desastres e das equipes de atendimento também, a
fim de reduzir danos e viabilizar a reconstrução da vida das pessoas atingidas e do
espaço e funcionamento da comunidade” (Silva; Silva; Barufi, 2023, p. 08).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo teve como objetivo analisar produções brasileiras em Psicologia
sobre Gestão de Riscos e Desastres, avaliando sua proximidade com as diretrizes das
Referências Técnicas para a Atuação do Psicólogo na Gestão Integral de Riscos,
Emergências e Desastres (CFP, 2021) e os impactos na formação profissional. No
recorte de 2018 a 2025, buscou-se identificar avanços, lacunas e tendências que
evidenciam o papel da Psicologia diante dos desafios ambientais contemporâneos. A
análise documental e bibliográfica permitiu a organização dos achados em três
categorias. A primeira, “O saber social e as vivências em território”, evidenciou o
território como espaço de pertencimento e destacou a invisibilização de saberes
populares e desigualdades nas práticas de gestão de risco. A segunda, “Atuação em
contextos de desastres e políticas públicas”, ressaltou a importância da integração
intersetorial, da crítica ao modelo tradicional e do compromisso com os direitos
humanos. A terceira, “Lacunas e desafios para a atuação profissional do psicólogo”,
apontou a resistência institucional à inserção do psicólogo na gestão de riscos,
deficiências na formação e capacitação, falta de articulação entre equipes e escassez
de recursos técnicos e humanos.
Apesar dos avanços, persistem desafios na consolidação da Psicologia nesse
campo. Ainda falta uma base epistemológica alinhada à realidade brasileira e maior
protagonismo nas fases preventivas dos desastres. Os dados evidenciam a urgência
de incluir essa temática nos currículos de graduação e de promover uma formação
que prepare efetivamente o psicólogo para atuar de forma ética e socialmente
comprometida.
Outrossim, reconhecendo a limitação geográfica do estudo, recomenda-se que
pesquisas futuras ampliem o escopo para outras universidades brasileiras, incluindo
entrevistas com profissionais e análise de experiências extensionistas e comunitárias,
que vêm protagonizando respostas relevantes. Espera-se, assim, contribuir para o
fortalecimento do debate sobre a atuação do psicólogo em desastres, reafirmando o
compromisso com os direitos humanos, a justiça social e a dignidade das populações
atingidas.
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