mas tem também os que não são” (Amanda, Escola C), explicando que estes sem
laudo poderiam receber acompanhamento no Aprender Mais.
Emerge, então, o enunciado “laudado”, como se aquele aluno passasse a ser
a materialização (documental) do que fora anteriormente apenas hipotetizado. Para
Deleuze (1996, p. 10), com base em Foucault, “cada dispositivo tem seu regime de
luz, uma maneira como cai a luz, se esbate e se propaga, distribuindo o visível e o
invisível, fazendo com que nasça ou desapareça o objeto que sem ela não existe". O
aluno “laudado", nesse caso, passa a existir, a ser subjetivado e objetivado como
público do AEE a partir da materialidade do laudo.
Ao responder, tentando marcar oposição à resposta da professora Amanda no
sentido de que, na escola em que estava lotada, o laudo não era necessário para o
AEE, Luisa (Escola B) se posicionou: “Não (não precisa) (...). No meu caso, lá na
escola, eu tinha um aluno que ele era atendido sim, ele ficou sendo atendido até
receber o laudo (grifo da pesquisadora)”. Ao final, nesse grupo, quando a
pesquisadora convocou para que analisassem as respostas, mesmo não havendo
consenso inicial entre Amanda e Luisa, a conclusão foi de que o laudo era
determinante para a prática do AEE porque, em algum momento, ele precisava ser
apresentado.
Ainda no G2, ao questionamento sobre se eles, professores regentes, tinham
acesso aos laudos, Sérgio (Escola A) respondeu que nunca procurou ter, que tudo
era conversado com a professora especialista do AEE, e justificou: “Mas eu tive a
sorte de encontrar pessoas leves”. Ao usar o termo “leves” referia-se às características
dos alunos atendidos pelo AEE que compuseram suas turmas durante cinco anos,
explicando que foram casos que havia manejado com mais facilidade.
O relato sinaliza, por parte do professor, a não necessidade de buscar os
laudos, o que, inclusive, contraria o que muitos estudos evidenciam, a respeito, por
exemplo, de docentes que esperam a chegada do laudo para direcionar suas práticas
pedagógicas no âmbito da sala comum (CORRÊA, 2013; PIETROBOM, 2016,
SOUZA, 2017, PUPO E BEZERRA, 2018). No sentido específico apresentado, o relato
evidencia que o suporte com a profissional especialista do AEE havia sido suficiente.
No entanto, o enunciado leve no contexto das práticas inclusivas, em referência à
condição de algum estudante, requer atenção, especialmente quando associado ao
enunciado sorte. Como pensar o estudante que não é leve? Que práticas são
direcionadas a estes e, como elas os subjetivam no âmbito da inclusão/exclusão?