O DETERMINANTE SOCIAL DO GÊNERO NA COMPREENSÃO DA
PSICOSSOMÁTICA EM MULHERES
THE SOCIAL DETERMINANT OF GENDER IN THE UNDERSTANDING OF
PSYCHOSOMATICS IN WOMEN
Ana Carolina Melo de Carvalho
1
Fabiane da Fontoura Messias de Melo
2
Resumo
A origem da psicossomática remete à associação entre o adoecimento somático e os
corpos femininos, perspectiva posteriormente reforçada por discursos que
biologizaram o sofrimento das mulheres e desconsideraram a relevância dos
determinantes sociais. Diante disso, o trabalho objetivou identificar se os estudos
acadêmicos sobre psicossomática em mulheres, publicados entre 2020 e 2025,
consideram o determinante social de gênero na compreensão da somatização.
Tratou-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo revisão sistemática da literatura,
realizada nos bancos de dados SciELO, BVS Saúde e Periódicos da CAPES. Após a
identificação dos trabalhos científicos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis em
língua portuguesa e que abordassem a psicossomática em mulheres, dez artigos
compuseram a amostra final, cujos dados foram interpretados por meio da análise de
conteúdo de Bardin. Os resultados indicaram que 90% dos estudos analisados, ainda
que não se propusessem a aprofundar os aspectos de gênero, consideraram essa
categoria relevante para o adoecimento somático feminino. Entre os principais fatores
associados, destacaram-se os dispositivos de gênero, a precarização e a
vulnerabilidade do trabalho feminino, além de experiências traumáticas e da violência
contra a mulher. Concluiu-se que a literatura recente tende a reconhecer o gênero
como determinante social relevante na compreensão da somatização em mulheres,
evidenciando a influência dos modos de produção contemporâneos sobre os
processos de subjetivação feminina.
Palavras-chave: Psicossomática; Gênero; Mulheres; Determinantes sociais da
saúde.
Abstract
The origins of psychosomatics are linked to the association between somatic illness
and female bodies, a perspective later reinforced by discourses that biologized
women’s suffering and disregarded the relevance of social determinants. In light of
1
Ana Carolina Melo de Carvalho (Carvalho, A.C.) - Graduada em Psicologia pela Universidade
Federal do Acre. Email: anacarolinacarvalho.psii@gmail.com. Lattes:
https://lattes.cnpq.br/6420347124674635.
2
Fabiane da Fontoura Messias de Melo (Melo, F.) Graduada em Psicologia pela
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (2006). Mestra em Psicologia pela Universidade
Federal de Rondônia (2012). Doutora em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito
- PPGD - UNB. Email: Fabiane.melo@ufac.br. Lattes:
http://lattes.cnpq.br/3498721394720719.
this, the study aimed to identify whether academic studies on psychosomatics in
women, published between 2020 and 2025, consider gender as a social determinant
in the understanding of somatization. This was a qualitative study, consisting of a
systematic literature review conducted in the SciELO, BVS Saúde, and CAPES
Journals databases. After identifying scientific studies published between 2020 and
2025, available in Portuguese and addressing psychosomatics in women, ten articles
composed the final sample, whose data were interpreted through Bardin’s content
analysis. The results indicated that 90% of the analyzed studies, although not
specifically intended to deepen discussions on gender issues, considered gender a
relevant category in female somatic illness. Among the main associated factors,
gender dispositifs, the precariousness and vulnerability of women’s work, traumatic
experiences, and violence against women stood out. It was concluded that recent
literature tends to recognize gender as a relevant social determinant in understanding
somatization in women, highlighting the influence of contemporary modes of
production on processes of female subjectivation.
Keywords: Psychosomatics; Gender; Women; Social determinants of health.
1. INTRODUÇÃO
A psicossomática constitui um campo de estudos historicamente marcado por
uma pluralidade de formulações teóricas e divergências conceituais importantes que
merecem ser contextualizadas. A ideia de que aspectos psíquicos podem interferir no
funcionamento do corpo e produzir adoecimentos acompanha a história da medicina
desde Hipócrates, ainda que os modos de explicar a articulação entre mente e corpo
permaneçam como objeto de debate (SOTO, 2006). Introduzida por Johann Heinroth,
no início do século XIX, a psicossomática compreende toda perturbação fisiológica
resultante de um determinismo psicológico que intervém de modo constante na
gênese da doença, sendo fundamentada na influência recíproca entre mente e corpo
(CAPITÃO; CARVALHO, 2006).
A Psicanálise exerceu especial influência na compreensão desse fenômeno
desde a sua origem, destacando-se pelo estudo dos casos de histeria desenvolvidos
por Sigmund Freud e Josef Breuer (1895/2016). Tradicionalmente, a histeria foi
compreendida como a doença dos humores femininos e descrita como um mecanismo
inconsciente no qual a pulsão recalcada é convertida em manifestações corporais
(GALDI; CAMPOS, 2017). Em paralelo, a perspectiva psicossomática adotada neste
estudo está atrelada às ideias de Joyce McDougall (1996) e Christophe Dejours
(1992), autores que compreendem a psicossomática como manifestações fisiológicas
do sofrimento psíquico, sem a postulação de uma estrutura clínica específica.
Reconhecida essa distinção, o presente trabalho não se propôs a aprofundar
as diferenças epistemológicas entre tais definições. O que se apresenta de maneira
salutar é o modo em que estes termos foram historicamente calcados para explicar
manifestações corporais de sofrimento em mulheres, frequentemente dissociados de
suas condições sociais e subjetivas, contribuindo para a consolidação da ideia de uma
suposta maior suscetibilidade feminina ao adoecimento (GALDI; CAMPOS; CAMPOS,
2017). Tal lógica sustentou um discurso tencionado por Valeska Zanello e Ana Paula
Andrade (2014), o qual tomava as mulheres como doentes pela própria condição de
serem mulheres, legitimando tratados médicos e especialidades voltadas ao controle
da pretensa fragilidade feminina e à proteção da função reprodutiva (ROHDEN, 2001).
No contexto contemporâneo, a psicossomática passou por tentativas de
decodificação em manuais psiquiátricos. A 5° edição revisada do Manual Diagnóstico
e Estatístico de Transtornos Mentais (APA, 2023) organiza as manifestações
tradicionalmente associadas à psicossomática sob a categoria dos transtornos de
sintomas somáticos e transtornos relacionados. Trata-se de um diagnóstico baseado
na presença de sintomas somáticos perturbadores, associados a pensamentos,
sentimentos e comportamentos desproporcionais ou disfuncionais em relação a esses
sintomas. Acrescenta-se ainda a noção de sintomas clinicamente inexplicados em
quadros específicos, como o transtorno conversivo e a pseudociese.
3
A 11° Classificação Internacional de Doenças (BRASIL, 2022), paralelamente,
apresenta as categorias de “Transtorno de Sofrimento Corporal” e “Fatores
Psicológicos ou Comportamentais que Afetam Distúrbios ou Doenças Classificados
em Outra Parte”. Essas seções identificam as doenças de cunho psicossomático como
respostas fisiológicas ao estresse que afetam negativamente a manifestação de uma
doença, como úlcera, hipertensão, arritmia, cefaleia tensional, dermatite e psoríase.
Ainda segundo o DSM-5-TR (APA, 2023), pessoas do sexo feminino tendem a relatar
mais sintomas somáticos do que pessoas do sexo masculino. Em consonância, dados
epidemiológicos brasileiros apontam maior incidência feminina desses quadros,
correspondendo a aproximadamente 65,9% dos casos registrados entre 2019 e 2023
(FONTES ET AL., 2024).
Almeida (2023) contribui para essa discussão ao apontar que determinados
3
Também conhecida como gravidez fictícia ou psicológica, trata-se de uma condição rara em que
sintomas físicos de gravidez surgem, sem que de fato haja uma. (Santos, et al., 2021).
corpos podem se mostrar mais suscetíveis a sofrimentos físicos e psíquicos do que
outros. Contudo, o aspecto central reside no fato de que dores crônicas e
adoecimentos somáticos e mentais têm incidido sobre corpos identificados, por si
próprios e socialmente, como femininos. Embora os aspectos biológicos não devam
ser negados, ele se revela insuficiente para a compreensão desses sofrimentos,
sobretudo diante da limitação epistemológica que persiste na explicação de quadros
sem marcadores patognomônicos claros. Assim como ocorreu com a histeria no
século XIX, a ausência de parâmetros biomédicos conclusivos abre espaço para que
outros campos do conhecimento contribuam para a compreensão desses
adoecimentos.
No Brasil, o debate sobre os Determinantes Sociais da Saúde (DSS) foi
institucionalizado a partir da criação da Comissão Nacional sobre Determinantes
Sociais da Saúde (CNDSS, 2006), que os define como fatores sociais, econômicos,
culturais, étnico-raciais e comportamentais que interferem nas condições de saúde e
na exposição a riscos, sendo responsáveis por grande parte das desigualdades em
saúde (SILVA; BICUDO, 2022). Esse entendimento foi sistematizado pela
Organização Mundial da Saúde a partir do modelo proposto por Solar e Irwin (2010),
que distingue determinantes estruturais e intermediários, sendo que os estruturais
abrangem fatores como classe social, raça/etnia e gênero, os quais organizam
posições socioeconômicas desiguais e condicionam diferentes níveis de
vulnerabilidade e adoecimento.
É necessário destacar que a perspectiva dos Determinantes Sociais da Saúde
(DSS) representou um avanço ao reconhecer que as desigualdades em saúde são
produzidas por fatores sociais, econômicos e políticos, no entanto, ela não propõe
uma análise das relações de poder e dos processos de exploração, dominação e
marginalização que estruturam essas desigualdades (BORDE; HERNÁNDEZ-
ÁLVAREZ; PORTO, 2015). Assim, este estudo articula essa perspectiva às
contribuições de Butler (1990) e Zanello (2018; 2022), por compreender que, apesar
de epistemologias distintas, esses referenciais são suplementares na análise dos
processos de subjetivação que sustentam a produção social do adoecimento em
mulheres.
O gênero, nesse entendimento, pode ser compreendido como uma repetição
estilizada de performances que produzem uma sensação de identidade e estabilidade
para o sujeito (BUTLER, 1990). Para além da noção de performance, o nero
também diz respeito a uma configuração de emocionalidades (ZANELLO, 2018),
sendo que emoções e comportamentos são aprendidos e mediados pela cultura. Em
sociedades sexistas, as emoções valorizadas e estimuladas em pessoas lidas como
meninas ou meninos são distintas, produzindo impactos diretos na experiência
subjetiva e corporal (ZANELLO, 2022). É válido ressaltar que o gênero é a categoria
analítica central desta pesquisa, e que sua análise invariavelmente pressupõe a
articulação de outros marcadores sociais, como raça, etnia e classe social, visto que
os dispositivos de nero operam de maneira imbricada às demais relações sociais
(ZANELLO, 2018; 2022).
Costa-Júnior, Almeida e Correr (2019) acrescentam ainda que, sobre o ensino
e a pesquisa científica, é necessário observar concepções biomédicas e sociais que
reproduzem visões antiquadas que consideram o corpo feminino como inerentemente
vulnerável e suscetível às manifestações psicossomáticas. Dessa forma, a revisão
sistemática buscou compreender como a literatura científica aborda esse fenômeno,
a fim de identificar visões estigmatizantes e promover discussões que fomentem
práticas de saúde integradas ao contexto social e histórico da subjetividade feminina.
Embora reconhecida a centralidade de abordagens interseccionais que contemplem
as transgeneridades, o estudo não se propõe a abarcar a complexidade das múltiplas
experiências de feminilidades, condição associada ao perfil das produções científicas
recentes sobre psicossomática.
Nesse sentido, a pesquisa teve como objetivo identificar se os estudos
acadêmicos sobre psicossomática em mulheres, publicados entre 2020 e 2025,
consideram o determinante social de gênero na compreensão da somatização. Para
isso, foram mapeados os estudos acadêmicos inseridos no recorte temporal proposto,
a fim de garantir a atualização teórica e metodológica da investigação e verificar se as
produções recentes têm sido atravessadas por debates sociais contemporâneos,
especialmente no que se refere aos fatores de correlação entre o adoecimento
psicossomático e o gênero feminino.
2. METODOLOGIA
Em termos metodológicos, a pesquisa caracterizou-se como qualitativa, voltada
à compreensão e explicação dos fenômenos e à produção de análises interpretativas
das relações sociais (MINAYO, 2010). Quanto ao delineamento, consistiu em uma
revisão sistemática da literatura, baseada na seleção criteriosa de textos publicados
sobre o tema. Trata-se de uma pesquisa secundária, com métodos explícitos e
sistematizados, de rigor científico e transparência, visando mitigar vieses na busca,
coleta e análise de dados de estudos primários (CAMPOS; CAETANO; GOMES,
2023).
A pergunta norteadora da pesquisa foi: “Os estudos acadêmicos sobre
psicossomática em mulheres, publicados entre 2020 e 2025, consideram o
determinante social de gênero na compreensão da somatização?”. Como instrumento
de coleta de dados, foi elaborada uma tabela na plataforma Google Sheets com os
artigos selecionados, contendo: título, autor, ano, objetivo, tipo de estudo, resultados,
perspectiva da psicossomática e fatores de relação entre adoecimento psicossomático
e gênero feminino.
Como procedimento de coleta de dados, a seleção dos artigos seguiu as
recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-
Analyses (PRISMA) (Moher et al., 2020). A busca bibliográfica se deu no período de
Novembro a Janeiro de 2025, e foi realizada nas bases Scientific Electronic Library
Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Portal de Periódicos CAPES,
utilizando os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). A estratégia de busca
empregou a expressão ("transtornos somatoformes" OR "psicossomática") AND
("mulheres" OR "gênero"), adaptada, quando necessário, às especificidades de
indexação de cada base de dados. Após a identificação dos estudos, realizou-se a
triagem por títulos e resumos, seguida da leitura na íntegra dos artigos potencialmente
elegíveis para verificação dos critérios de inclusão e exclusão previamente
estabelecidos.
Quanto aos critérios de inclusão, foram considerados: (1) trabalhos científicos
publicados entre 2020 e 2025; (2) publicações disponíveis em língua portuguesa; (3)
estudos que abordassem a psicossomática em mulheres; e (4) artigos disponíveis na
íntegra em acesso aberto. Como critérios de exclusão, adotaram-se: (1) estudos de
revisão de literatura; e (2) resumos simples. Com o objetivo de minimizar potenciais
vieses durante o processo de seleção, os critérios de elegibilidade foram definidos
previamente e aplicados de forma padronizada em todas as etapas da triagem e da
leitura dos textos completos. A descrição detalhada do processo de identificação,
triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos encontra-se apresentada na Figura 1.
Figura 1 - Etapas do PRISMA
Fonte: Elaborada pelas autoras, baseada em Moher et al., (2020).
Para a análise e síntese dos artigos que atenderam aos critérios de inclusão,
foi utilizada a análise de conteúdo proposta por Bardin (2011). A partir desse processo,
realizou-se a organização das informações relevantes em tabela expositiva e
agrupamento dos dados brutos conforme as recorrências temáticas identificadas,
especialmente quanto aos fatores indicados por cada artigo para associar o
adoecimento psicossomático ao gênero feminino. Em seguida, foram construídas
subcategorias, posteriormente codificadas em núcleos de sentido mais amplos, que
subsidiaram a formulação das categorias de análise.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A busca realizada nos bancos de dados acadêmicos resultou inicialmente em
quarenta e seis trabalhos científicos. Após a aplicação dos critérios de inclusão e
exclusão, dez trabalhos mostraram-se elegíveis e compuseram a amostra final da
presente revisão sistemática. Quanto aos dados descritivos dos artigos selecionados,
observou-se predominância de estudos publicados em 2023, correspondendo a
quatro artigos da amostra. Os demais trabalhos distribuíram-se de forma equilibrada
entre os anos de 2025, 2022 e 2020, cada um representando dois artigos do total.
Em relação às bases de dados, verificou-se que a maioria dos artigos
selecionados foi encontrada no Portal de Periódicos da CAPES, totalizando nove
artigos, sendo apenas um estudo proveniente de outra base (BVS Saúde). Quanto
aos aspectos metodológicos, predominaram estudos descritivos e transversais, que
corresponderam a quatro artigos da amostra, bem como abordagens qualitativas,
presentes em seis dos trabalhos analisados. No que diz respeito às áreas temáticas
das revistas, destacaram-se aquelas de caráter multidisciplinar, com cinco artigos,
seguidas da área específica da psicologia, com dois artigos, enfermagem, com um
artigo, medicina, com um artigo, e ciências agrárias e biológicas, com um artigo. Os
artigos estavam indexados em periódicos como Research, Society and Development
e Brazilian Journals Publicações de Periódicos e Editora Ltda.
A análise dos artigos revelou significativa associação entre o adoecimento
psicossomático e o gênero feminino. Nove dos dez estudos adotaram uma perspectiva
crítica e psicossocial para compreender a somatização em mulheres, articulando esse
fenômeno a dispositivos de gênero, condições precárias de trabalho, violência
estrutural e experiências traumáticas. Nesses trabalhos, o corpo aparece
recorrentemente como lugar de expressão de conflitos que encontram limites na
elaboração psíquica, sendo o sofrimento compreendido como indissociável das
condições sociais, culturais e econômicas que atravessam a vida das mulheres
(ALMEIDA, 2023).
Apenas um estudo da amostra não adotou o determinante social do gênero em
sua análise do adoecimento psicossomático, apesar de apresentar, em seus
resultados, maior prevalência de transtornos somatoformes em mulheres. Trata-se de
um trabalho da área médica, com abordagem epidemiológica, cujo foco esteve
centrado na descrição da distribuição e da frequência de transtornos mentais em um
ambulatório médico de psiquiatria. Assim, embora o estudo tenha identificado
diferenças entre homens e mulheres, o se propôs a aprofundar a análise dos fatores
sociais, simbólicos e históricos implicados nessas disparidades, o que parece estar
associado aos objetivos próprios da epidemiologia.
A partir da observação dos principais sentidos atribuídos à relação entre o
gênero feminino e a somatização nos artigos, foram construídas quatro categorias
centrais de análise, sendo estas: Categoria 01: Dispositivos de gênero; Categoria 02:
Precarização do trabalho feminino e vulnerabilidade social; Categoria 03: Experiências
traumáticas e violência contra à mulher; Categoria 04: Abordagens biomédicas e
epidemiológicas do adoecimento somático.
Dentre as categorias identificadas, destacou-se a Categoria 02: Precarização
do trabalho feminino e vulnerabilidade social, com maior número de estudos (40% da
amostra), voltados à caracterização de perfis epidemiológicos do sofrimento somático.
Observou-se ainda que, na epidemiologia, a correlação entre gênero e somatização
tende a enfatizar aspectos psicossociais do trabalho, enquanto psicologia,
enfermagem e saúde coletiva aprofundam com maior frequência os dispositivos de
gênero.
A seguir, estão dispostas a discussão das categorias centrais deste estudo. Os
quadros com os títulos dos trabalhos incluídos em cada categoria, bem como as
subcategorias identificadas, antecedem cada seção, a fim de facilitar a visualização e
a compreensão das análises realizadas.
3.1. Dispositivos de gênero
Quadro 1 - Dispositivos de gênero
Título do trabalho
Subcategorias
Psicossomática pós-COVID-19: sinais e sintomas causadores de
adoecimento mental.
Estado civil não conjugal
4
Sobrecarga de cuidado
Os impactos dos ideais de beleza difundidos em redes sociais na
subjetividade e nos processos de sofrimento psíquico de portadores de
doenças dermatológicas.
Busca pelo corpo feminino e magro
Sofrimento estético do
adoecimento somático
Estado civil não conjugal
Para pensar a psicossomática e sua relação com o feminino.
Busca pelo corpo feminino e magro
Fonte: elaborado pelas autoras.
Essa categoria de análise reuniu três estudos que evidenciaram a relação entre
o adoecimento psicossomático e os dispositivos de gênero. Entende-se por
dispositivo, nesta pesquisa, práticas discursivas e de fazeres relacionadas a condutas
atravessadas por processos históricos, culturais, sociais e materiais (FOUCAULT,
4
Os autores empregam o termo “estado civil desfavorável” para incluir mulheres divorciadas, solteiras
e/ou viúvas. Neste estudo, adotou-se o termo “estado civil não conjugal” para designar essas
categorias.
2006). No caso do gênero, tais dispositivos operam na produção de modos de
subjetivação, sustentando normas e expectativas acerca do feminino e do masculino
(BUTLER, 2006). Nessa perspectiva, Zanello (2018) destaca que, na cultura brasileira,
os dispositivos amoroso e materno constituem importantes tecnologias de gênero que
organizam a experiência subjetiva das mulheres e produzem efeitos sobre seus
modos de sofrimento.
Quando analisados os estudos incluídos nesta revisão, observa-se que dois
deles abordam a psicossomática a partir do dispositivo amoroso, discutindo
adoecimentos dermatológicos ou sintomas corporais visíveis e destacando o impacto
do olhar do outro e dos padrões de beleza sobre a experiência da doença. No artigo
"Os impactos dos ideais de beleza difundidos em redes sociais na subjetividade e nos
processos de sofrimento psíquico de portadores de doenças dermatológicas"
(FERNANDES, 2023), evidencia-se a supervalorização do corpo feminino magro e
perfeito como símbolo de independência e sucesso, ideal imposto às mulheres de
diferentes classes e idades.
Nesse estudo, o dispositivo amoroso não é apresentado como causa do
adoecimento somático, mas como elemento que incide sobre a experiência subjetiva
da doença, produzindo sofrimento adicional. A exigência de ser desejável, jovem e
adequada aos ideais estéticos vigentes impõe às mulheres uma relação específica
com o próprio corpo, de modo que o estado civil não conjugal e/ou não ter sido
escolhida por um homem significa não ser boa o suficiente ou possuir algum "defeito"
(PALMA et al., 2020, p. 110). Os achados evidenciam, portanto, que os dispositivos
de gênero operam na gênese, manutenção e intensificação do sofrimento.
Em consonância, o trabalho "Para pensar a psicossomática e sua relação com
o feminino" (MORAIS, 2023) analisa o caso clínico de uma paciente com lúpus
eritematoso sistêmico, compreendendo a doença como fenômeno psicossomático
relacionado à inscrição corporal de experiências traumáticas. As interpelações do
dispositivo amoroso aparecem quando a paciente se descreve como "diferente",
percepção associada à cobrança familiar, especialmente materna, para adequação do
corpo aos padrões sociais vigentes. Conforme Zanello (2018), o dispositivo amoroso
opera de forma estrutural, sendo continuamente reafirmado nas relações sociais e
familiares, produzindo formas específicas de validação e reconhecimento do feminino.
O dispositivo materno também emergiu como elemento relevante na
compreensão do adoecimento psicossomático. Compreendido como uma construção
social que associa a identidade feminina ao exercício da maternidade (ZANELLO,
2018), esse dispositivo estabelece expectativas de cuidado, dedicação e renúncia e
culpabiliza aquelas que não conseguem capturar esta imposição. Caso não opere da
forma indicada, a mulher pode ser predicada como egoísta ou desqualificada
enquanto mulher (PINHEIRO, 2014).
Essa compreensão é corroborada pelo artigo "Psicossomática pós-COVID-19:
sinais e sintomas causadores de adoecimento mental" (RIBEIRO et al., 2022), que
relaciona o adoecimento psicossomático feminino à dupla jornada de trabalho, ao
medo, às sensações de desamparo e às condições socioeconômicas e familiares
adversas, como baixa renda e ausência de suporte social, especialmente entre
mulheres com filhos. Os autores evidenciam que a sobreposição das demandas de
trabalho, cuidado e maternidade intensifica o sofrimento psíquico e favorece
manifestações psicossomáticas.
Os achados desses estudos contribuem para a compreensão do uso do corpo
como veículo de expressão do sofrimento, quando circunstâncias internas ou externas
ultrapassam os modos habituais de resistência psíquica (DIAS et al., 2007). Em
consonância, a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP, 2014)
aponta que indivíduos com doenças psicossomáticas apresentam dificuldades em
sentir e se apropriar das próprias emoções, que permanecem inscritas no corpo por
não encontrarem vias de representação simbólica, restando um corpo que dói à
margem da palavra.
O corpo, diante disso, apresenta-se como único cenário possível para a
representação do sofrimento psíquico, visto que socialmente não espaço para
pensar acerca do mal-estar na maternidade. Por tornar-se um fator identitário
feminino, recai sobre as mulheres a responsabilidade da saúde mental e
desenvolvimento infantil das crianças, não havendo espaço para dor, sofrimento,
arrependimento ou raiva diante da descoberta da gestação, do pré-natal, parto,
amamentação e criação dos filhos (MAUÉS et al., 2021).
3.2. Precarização do trabalho feminino e vulnerabilidade social
Quadro 2 - Precarização do trabalho feminino e vulnerabilidade social
Título do trabalho
Subcategorias
Transtornos mentais relacionados ao trabalho em Alagoas: um estudo
epidemiológico entre 2017 e 2021.
Baixa remuneração
Periculosidade no trabalho
Desemprego
Trabalho informal
Longa jornada de trabalho
Descrição do perfil biopsicossocial e as principais hipóteses
diagnósticas dos pacientes que buscam por atendimento no Pronto
Atendimento em Saúde Mental de João Pessoa.
Baixa remuneração
Exposição à pobreza
Desemprego
Trabalho informal
Longa jornada de trabalho
Distúrbios psiquiátricos menores e estresse em policiais militares.
Periculosidade no trabalho
Longa jornada de trabalho
Baixa remuneração
Perfil epidemiológico dos usuários de um Centro de Atenção
Psicossocial.
Desemprego
Trabalho informal
Exposição à pobreza
Fonte: elaborado pelas autoras.
Quatro dos artigos incluídos nesta pesquisa estiveram englobados nesta
categoria, cujo eixo central está na compreensão do trabalho, ou de sua ausência,
como um determinante social específico do sofrimento psicossomático feminino. Os
estudos analisados evidenciam que tanto condições laborais precárias quanto o
desemprego configuram-se como fatores estruturantes da somatização. Ainda que o
adoecimento somático esteja frequentemente associado à dupla jornada de trabalho
feminina, discutida na categoria “Psicossomática e dispositivos de gênero”, os artigos
aqui reunidos inferem centralidade própria às características psicossociais do trabalho
e às formas de vulnerabilização socioeconômica dele decorrentes.
Nesse sentido, os estudos apontam que fatores como habitação precária,
desemprego e exposição à pobreza representam alguns dos principais elementos
associados aos processos de adoecimento e somatização em mulheres. Dados
apresentados por Barbosa et al. (2020), ao traçarem o perfil epidemiológico dos
usuários de um CAPS II no município de Paulo Afonso (BA), indicam que o sofrimento
psíquico associa-se a condições socioeconômicas desfavoráveis e acesso limitado a
bens de consumo. Embora muitos prontuários não informem ocupação, observou-se
predominância de usuários empregados, aspecto que pode estar relacionado ao
trabalho informal e condições laborais contingentes.
Diante disso, essa categoria apresenta inicialmente o vínculo empregatício
como potencial fonte de adoecimento, especialmente quando marcado por longas
jornadas de trabalho, periculosidade, exigências físicas intensas e desigualdade
salarial de gênero (GARCIA; MONTEIRO; GREGOVISKI, 2023). Tal ambivalência
evidencia que o trabalho não pode ser compreendido de forma exclusivamente
protetiva ou patogênica, mas como um campo atravessado por contradições
estruturais e históricas, capaz de produzir reconhecimento e sofrimento.
Nessa direção, a perspectiva da saúde do trabalhador e da psicossomática
permite compreender que o adoecimento relacionado ao trabalho não decorre apenas
da exposição a riscos físicos, mas também da organização do trabalho e das
experiências subjetivas implicadas na atividade laboral (RODRIGUES; FRANÇA,
2010; PITTA, 1990). Conforme Dejours (1992), a ausência de reconhecimento, o
esvaziamento do sentido da tarefa e a impossibilidade de realização simbólica podem
favorecer a instalação de adoecimentos somáticos.
Quando essa dinâmica é situada na experiência das mulheres, observa-se que
o sofrimento tende a assumir configurações específicas, uma vez que o trabalho é
atravessado por hierarquias de gênero que organizam práticas e modos de
reconhecimento (SCOTT, 1990). Essa dinâmica é ilustrada pelo estudo de Garcia,
Monteiro e Gregoviski (2023) com policiais militares, no qual as mulheres
apresentaram índices significativamente mais elevados de distúrbios psiquiátricos
menores em comparação aos homens. Entre os fatores associados destacam-se
práticas de assédio, comparações constantes com padrões de desempenho
masculinos, jornadas irregulares e exigências físicas intensas.
Em consonância, o estudo “Transtornos mentais relacionados ao trabalho em
Alagoas: um estudo epidemiológico entre 2017 e 2021(AMARAL et al., 2023) destaca
a centralidade das condições e da organização do trabalho como determinantes
sociais em saúde. O estudo aponta que ambientes laborais desfavoráveis, relações
interpessoais conflituosas, desemprego e exposição prolongada podem contribuir
para transtornos somáticos, além de indicar crescimento dos casos entre mulheres ao
longo dos anos, associado à sobrecarga de demandas extra trabalho e à maior
exposição ao assédio.
No que se refere especificamente ao desemprego, os estudos analisados
indicam que o desemprego constitui fator de risco relevante para o sofrimento
feminino. Tal achado dialoga com a perspectiva marxiana, segundo a qual o trabalho
ocupa lugar central na constituição do ser social (MARX, 1867/2017), bem como com
Clot (2006), ao compreender que a inserção laboral participa da construção do
sentimento de utilidade social, pertencimento e reconhecimento. Assim, o
desemprego prolongado pode fragilizar os vínculos sociais e favorecer o surgimento
de sofrimento psíquico e adoecimento somático (VIEIRA, 2024).
Essa vulnerabilidade é reforçada pelo artigo “Descrição do perfil biopsicossocial
e as principais hipóteses diagnósticas dos pacientes que buscam atendimento no
Pronto Atendimento em Saúde Mental de João Pessoa” (MORAIS et al., 2025), no
qual 62% das pacientes eram mulheres, com idade média de 38,6 anos. O estudo
aponta maior predisposição feminina à busca por cuidados em saúde mental,
associada a transtornos como depressão e ansiedade, agravados por fatores
socioeconômicos e demográficos, como desemprego, baixa escolaridade, trabalho
informal e exposição à pobreza e à violência de gênero.
Outrossim, é importante destacar que, para as mulheres, a condição de
desemprego adquire contornos específicos. Oshiro (2017), ao investigar mulheres em
situação de violência doméstica, evidencia que as agressões físicas e psicológicas
sofridas no contexto relacional dificultam a autonomia financeira. As restrições
impostas à circulação, o adoecimento psíquico e a ausência de alternativas concretas
para ruptura com a situação de violência comprometem a inserção e a permanência
no trabalho, aprofundando a vulnerabilidade social e o sofrimento psicossomático.
Dessa forma, desemprego, violência de gênero e adoecimento configuram-se como
fenômenos interdependentes, que se retroalimentam no interior das desigualdades
estruturais.
3.3. Experiências traumáticas e violência contra à mulher
Quadro 3 - Experiências traumáticas e violência contra à mulher
Título do trabalho
Subcategorias
"Minha vida, meu corpo é um hematoma": vivências de
pessoas com dor musculoesquelética crônica.
Abuso sexual
Assédio
Experiências traumáticas
Emoções reprimidas e conflitos internos
Luto
Um nome para a dor: fatores psicológicos presentes no
discurso de mulheres com fibromialgia.
Experiências traumáticas
Emoções reprimidas e conflitos internos
Luto
Violência de gênero
Fonte: elaborado pelas autoras.
Essa categoria de análise foi desenvolvida a partir de dois artigos principais
incluídos na amostra da pesquisa. É importante ressaltar, contudo, que as
experiências traumáticas e a violência estrutural de gênero emergiram como temáticas
transversais na maioria dos estudos analisados, articulando-se diretamente à
compreensão psicossomática do adoecimento. Sob a perspectiva psicodinâmica,
quando os afetos se desligam de suas representações, tendem a ser convertidos ou
transformados, podendo encontrar no corpo uma via de expressão diante de falhas
nos processos de simbolização e elaboração psíquica (FREUD, 1926/2014;
MCDOUGALL, 1996).
Essa compreensão é corroborada pelo estudo “Um nome para a dor: fatores
psicológicos presentes no discurso de mulheres com fibromialgia” (SIQUEIRA;
OLIVEIRA; ALVES, 2025), no qual os autores evidenciam que perturbações
emocionais ao longo do desenvolvimento feminino, bem como vivências de perda,
desamparo e abandono, configuram importantes agentes estressores associados à
manifestação da dor corporal. O corpo, nesse contexto, surge como lugar privilegiado
de inscrição de sofrimentos que não puderam ser simbolicamente elaborados. Esses
achados dialogam com estudos que demonstram associações entre experiências
traumáticas precoces, ambientes familiares marcados por frieza afetiva, abuso
emocional, violência física, abuso sexual e negligência e os processos de somatização
(WALDINGER et al., 2006 apud MELLO-FILHO; BURD, 2010; FORTES; TÓFOLI;
BAPTISTA, 2010).
No caso das mulheres, essas experiências traumáticas encontram expressão
particular na violência de gênero. Trata-se de uma violência estruturalmente ancorada
nas relações de gênero, envolvendo violências doméstica, familiar, sexual,
psicológica, física e patrimonial, que têm como finalidade o controle e a subordinação
das mulheres (PORTO, 2006; PORTO, 2010). Embora possa ocorrer em diferentes
espaços, estudos apontam que a violência é predominantemente praticada no âmbito
doméstico e permanece frequentemente invisibilizada por interpretações que a
associam ao descontrole emocional masculino ou à responsabilização da própria
mulher (ZANELLO, 2022).
Essa compreensão também é sustentada pelos achados de Borini et al. (2022),
no artigo “Minha vida, meu corpo é um hematoma": vivências de pessoas com dor
musculoesquelética crônica”, que identificam histórico frequente de abuso físico,
psicológico ou sexual entre mulheres com dor crônica. Nos diagnósticos
somatoformes, como a fibromialgia, aproximadamente 70% das mulheres relataram
experiências prévias de violência, associadas à depressão, fadiga persistente e
distúrbios do sono. Os autores destacam, ainda, que a dificuldade de rompimento dos
ciclos de violência e o acesso restrito às formas de cuidado, atravessados pelo
dispositivo amoroso, contribuem para a cronificação do sofrimento.
Em suma, os estudos analisados indicam que as experiências traumáticas,
especialmente a violência de gênero, constituem fatores associados ao adoecimento
psicossomático em mulheres. A literatura revisada aponta impactos amplos na saúde
feminina, manifestando-se em dor persistente, medo, cicatrizes físicas e sofrimento
psíquico (MIRANDA; LIMA, 2023). Assim, a somatização pode constituir uma via de
expressão do sofrimento em contextos de violência, ausência de reconhecimento e
dificuldades de simbolização.
3.4. Abordagens biomédicas e epidemiológicas do adoecimento somático
Quadro 4 - Abordagens biomédicas e epidemiológicas do sofrimento somático
Subcategoria
Epidemiologia
Fonte: elaborado pelas autoras.
Apenas um artigo da amostra da pesquisa esteve disposto nesta categoria. O
conteúdo identificado faz menção ao modelo biomédico, caracterizado como matriz
hegemônica das práticas em saúde, centrada na dimensão biológica do corpo e na
primazia do diagnóstico (RAIMUNDO; SILVA, 2020). Trata-se de um modelo que
privilegia a descrição dos processos de adoecimento a partir de seus aspectos
biológicos, relegando a segundo plano fatores sociais, históricos, culturais e
subjetivos. Essa racionalidade também orienta grande parte das abordagens
epidemiológicas, cujo objetivo consiste em analisar a frequência, a distribuição e os
determinantes dos eventos de saúde em populações humanas, subsidiando
intervenções em saúde pública (REICHENHEIM; BASTOS, 2021).
Nesse viés, embora quatro artigos da área epidemiológica tenham feito parte
desta revisão sistemática, apenas um compôs efetivamente esta categoria de análise.
O estudo “Ambulatório médico de psiquiatria: 30.151 casos” (SANTOS et al., 2020)
objetivou descrever as características do serviço e o perfil dos usuários atendidos no
Ambulatório Médico de Especialidades de Psiquiatria Dra. Jandira Masur (AME
Psiquiatria), localizado na cidade de São Paulo. Trata-se do maior estudo ambulatorial
realizado no Brasil, abrangendo uma amostra de 30.151 pacientes. Os resultados
indicaram que a maioria dos usuários atendidos era composta por mulheres (62%),
sendo os diagnósticos mais prevalentes os transtornos do humor e de ansiedade
(36,5%), seguidos pelos transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e
transtornos somatoformes (29%).
O estudo cumpre adequadamente o objetivo de descrever o perfil
epidemiológico dos usuários do serviço e a distribuição dos diagnósticos psiquiátricos.
No entanto, observa-se a ausência de problematização dos fatores sociais que
atravessam a maior prevalência de mulheres entre os casos atendidos. Esse aspecto
contrasta com os demais estudos epidemiológicos incluídos nesta revisão, nos quais
o gênero aparece como categoria analítica relevante para compreender os processos
de adoecimento. Assim, embora os achados produzam informações importantes
sobre a distribuição dos diagnósticos, a ênfase na descrição quantitativa e na
categorização diagnóstica tende a invisibilizar determinantes sociais do sofrimento,
especialmente entre mulheres.
Essa interpretação dialoga com Zanello e Andrade (2018), ao afirmarem que a
distribuição desigual dos transtornos mentais entre homens e mulheres e entre
diferentes grupos sociais não pode ser compreendida exclusivamente pela lógica
biomédica, uma vez que os diagnósticos frequentemente expressam processos de
medicalização e psiquiatrização de mazelas sociais. Nessa direção, os resultados
desta categoria evidenciam que, embora as abordagens epidemiológicas contribuam
para a caracterização dos fenômenos em saúde, sua compreensão torna-se mais
abrangente quando articulada aos determinantes sociais do adoecimento. Tal
constatação reforça a problemática central desta pesquisa, ao evidenciar que a
compreensão da psicossomática em mulheres demanda considerar, para além da
dimensão biológica, os atravessamentos sociais, históricos e de gênero implicados na
produção do sofrimento (COSTA-JÚNIOR; ALMEIDA; CORRER, 2019).
CONCLUSÃO
A presente pesquisa teve como objetivo analisar se os estudos acadêmicos
sobre psicossomática em mulheres, publicados entre 2020 e 2025, consideraram o
determinante social de gênero na compreensão da somatização. A partir da revisão
sistemática da literatura, foi possível identificar que, ainda que a discussão da maioria
dos artigos o tenha disposto o elemento do gênero como central, este foi citado e
considerado na maior parte dos estudos analisados, sendo apontado como fator
relacionado aos adoecimentos somáticos em nove, dos dez estudos.
Entende-se que esse resultado pode estar associado ao recorte temporal
contemporâneo adotado por esta pesquisa. Como contraponto histórico, cita-se um
estudo primário realizado em 2007, cujo objetivo foi caracterizar a demanda de
pacientes com diagnóstico de doença psicossomática atendidos no HCFMRP-USP,
no período de 1996 a 2004 (MARTINS, 2007). Esse estudo identificou maior
prevalência do transtorno de somatização em mulheres, atribuindo tal dado
principalmente a fatores biológicos, como alterações hormonais associadas à
menarca e à gravidez, evidenciando uma leitura biomédica com pouco destaque aos
atravessamentos sociais, históricos e culturais do gênero.
Ainda assim, o resultado desta revisão sistemática não pode ser considerado
generalizante, considerando a amostra limitada de artigos. Apesar da correlação entre
gênero e adoecimento somático, foi possível analisar um artigo ancorado em modelos
biomédicos e epidemiológicos. Embora tenha cumprido objetivos descritivos, notou-
se que o apagamento do gênero não é homogêneo na literatura: estudos
epidemiológicos tendem a privilegiar aspectos psicossociais do trabalho, enquanto
produções da psicologia, enfermagem e saúde coletiva aprofundam com maior
frequência os dispositivos de gênero.
Destaca-se ainda que, na amostra analisada, os aspectos psicossociais
relacionados ao trabalho feminino se sobressaíram, indo além da leitura centrada na
noção de dupla jornada de trabalho. Os estudos indicaram que determinados modos
de inserção das mulheres no mundo do trabalho, marcados por baixa remuneração,
periculosidade no trabalho, desemprego e trabalho informal constituem elementos que
corroboram para os processos de adoecimento psicossomático. Tais aspectos
parecem apontar para a existência de características inerentes às formas socialmente
atribuídas ao trabalho feminino que produzem efeitos específicos sobre o corpo e a
subjetividade.
Reconhecem-se como limitações deste estudo a pluralidade de significados e
tendências no campo da psicossomática (MELLO-FILHO; BURD, 2010), o recorte
temporal adotado, que privilegiou estudos recentes, e as limitações metodológicas
relacionadas à dependência da literatura disponível. Indica-se também como limitação
a perspectiva psicossomática adotada, baseada em Joyce McDougall (1996) e
Christopher Dejours (1992), cujas formulações não consideram explicitamente o
determinante social de gênero, tensionando a análise. Soma-se a isso o fato de que,
embora fundamentada na psicanálise, a psicossomática vem sendo frequentemente
assimilada à “medicina psicossomática”, como sinônimo de uma abordagem integral
do ser humano, o que dilui suas especificidades teóricas e clínicas.
Ainda assim, os achados desta revisão contribuem para a produção de
conhecimento em Psicologia e oferecem subsídios para a atuação profissional em
diferentes contextos de atenção à saúde. Ao evidenciar a relevância do determinante
social de gênero na compreensão da somatização em mulheres, o estudo reforça a
necessidade de práticas clínicas e institucionais, bem como do aprimoramento e da
formulação de políticas públicas em saúde inclusivas, que incorporem os processos
de subjetivação, as relações de trabalho e as desigualdades de gênero envolvidos no
adoecimento. Nesse sentido, políticas voltadas à saúde da mulher podem beneficiar-
se de abordagens interdisciplinares que considerem os processos de subjetivação que
atravessam o sofrimento feminino. Para a produção científica, a pesquisa também
reforça, como aponta Iaconelli (2025), a importância de tensionar discursos
reducionistas que possam contribuir para a culpabilização das mulheres diante de
quadros psicossomáticos.
Os achados apontam ainda para a necessidade de futuras pesquisas que
aprofundem a investigação empírica sobre a psicossomática em mulheres,
especialmente a partir de perspectivas interseccionais que articulem o gênero a outros
marcadores estruturais, como raça e classe social. Além disso, considerando os
resultados dessa pesquisa, faz-se pertinente que estudos posteriores se dediquem a
problematizar de que forma os modos de produção contemporâneos e capitalistas
incidem sobre os processos de subjetivação feminina e sobre as formas de
adoecimento psicossomático. Nesse sentido, mais do que identificar correlações entre
gênero e somatização, coloca-se como questão ética e política investigar quais
possibilidades de elaboração podem ser construídas frente a contextos estruturais que
reiteradamente produzem sofrimento, interrogando, assim, não apenas por que as
mulheres adoecem, mas sob quais condições sociais e capitais a somatização se
torna a única via possível de expressão do mal-estar.
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