compreender e intervir sobre o sofrimento psíquico. Nesse processo, a singularidade
dos sujeitos é subordinada à norma, e o indivíduo em sofrimento passa a ser apreendido
prioritariamente como objeto de saber e intervenção médico-institucional. Embora a
institucionalização da loucura tenha contribuído para a produção de um saber científico
sobre o sofrimento psíquico, ela também operou a redução do sujeito à condição de
caso clínico, legitimando práticas de isolamento, exclusão e contenção.
Nesse cenário, a psicanálise passa a ocupar lugar importante nos serviços
substitutivos de saúde mental ao sustentar uma prática clínica orientada pela escuta da
singularidade do sujeito. Diferentemente de abordagens centradas exclusivamente na
remissão sintomática e na adaptação normativa, a psicanálise propõe uma clínica que
considera o sofrimento psíquico como atravessado pela linguagem, pelo desejo e pelas
formas singulares de inserção do sujeito no laço social (Ribeiro, 2005; Gomes, 2009).
Nos CAPS, essa perspectiva possibilita a construção de dispositivos clínicos que
privilegiam a fala dos usuários e a produção de sentidos acerca de suas experiências
de sofrimento, deslocando o foco exclusivo do diagnóstico para os modos singulares
de subjetivação (Santos, Fonseca, Neto, 2020).
Entre os sujeitos atendidos nos CAPS, destacam-se aqueles diagnosticados com
esquizofrenia, frequentemente considerados paradigmáticos no campo das psicoses.
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), a
esquizofrenia é caracterizada como um transtorno mental crônico marcado por
alterações cognitivas, afetivas e comportamentais, envolvendo sintomas como delírios,
alucinações, discurso desorganizado, alterações motoras e sintomas negativos, como
embotamento afetivo e alogia. Embora tais descrições possuam relevância clínica e
diagnóstica, a psicanálise estabelece importantes tensionamentos em relação à lógica
descritiva e classificatória presente nos manuais psiquiátricos.
Pode-se pensar, por exemplo, no progressivo apagamento das discussões
etiológicas a partir do DSM-III, em favor de uma perspectiva descritiva e pretensamente
ateórica, voltada à universalização diagnóstica para diferentes campos profissionais
(Tenório, 2016). Mais do que representarem avanços neutros da ciência psiquiátrica,
tais mudanças revelam transformações nos modos de significar o sofrimento psíquico,
cada vez mais orientados por uma racionalidade diagnóstica e classificatória que tende
a deslocar o sujeito de sua própria experiência. Nesse processo, a singularidade do
sofrimento pode ser reduzida à categoria diagnóstica, reforçando práticas centradas
prioritariamente na medicalização e no controle sintomático.
Em contraposição a essa perspectiva, a psicanálise propõe uma leitura estrutural
da psicose, compreendendo-a não apenas como conjunto de sintomas, mas como uma