O grupo de ouvidores de vozes como um dispositivo clínico em saúde mental:
um estudo no Centro de Atenção Psicossocial Madeira Mamoré
Halanderson Raymission da Silva Pereira
1
Tácia Regina Dantas Buganem
2
Resumo
Neste trabalho, apresenta-se os resultados de uma Pesquisa de Iniciação Científica,
que teve como método a pesquisa em psicanálise. Tal pesquisa foi realizada em 2023-
2024, na cidade de Porto Velho em um CAPS II, cujo objetivo foi a construção de um
grupo de ouvidores de vozes como um dispositivo clínico em saúde mental. Nesse
dispositivo, foi realizada a escuta dos sujeitos, no qual foi identificado e analisado
através das contribuições teóricas da clínica psicanalítica. A partir das escutas, foram
estabelecidos três eixos de análise: 1) Experiências e características das vozes 2)
Além da medicação: a arte no conviver com as vozes e 3) Os efeitos da palavra. No
primeiro eixo, foi percebido que as vozes variaram radicalmente entre si, tanto pelas
vivências singulares, mas também por não serem entendidas apenas na dimensão da
fala. No segundo, a arte aparece como forma fundamental de um possível acesso
simbólico e de laço social. Enquanto no terceiro, os sentimentos diante do diagnóstico
variam. Por fim, os desdobramentos do grupo apontam a importância do oferecimento
de um espaço que privilegie a fala dos sujeitos e reconheça seus próprios modos de
cuidado.
Palavras-chave: psicanálise; psicose; saúde mental.
Abstract
This paper presents the results of an Undergraduate Research Project conducted
using the psychoanalytic research method. The study was carried out between 2023
and 2024 in the city of Porto Velho, Brazil, at a Psychosocial Care Center (CAPS II).
Its objective was to establish a Hearing Voices Group as a clinical device within the
field of mental health care. Within this setting, participants' narratives were listened to
and analyzed through the theoretical contributions of psychoanalytic clinical practice.
Based on these accounts, three axes of analysis were established: (1) Experiences
and Characteristics of the Voices; (2) Beyond Medication: Art as a Means of Living
1
Halanderson Raymisson da Silva Pereira, Doutor e mestre em Psicologia. Professor Adjunto da
Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Membro IF-EPFCL Brasil (Escola de Psicanálise dos
Fóruns do Campo Lacaniano) e do Fórum Porto-Rio. Membro do Grupo de Trabalho (43) Psicanálise,
Política e Clínica da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP).
Vice-líder do Centro de Estudo e Pesquisa da Subjetividade na Amazônia (CEPSAM). E-mail:
pereira.halanderson@gmail.com. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7995879357865451. Orcid:
https://orcid.org/0000-0001-5928-4894.
2
cia Regina Dantas Buganem, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Rondônia, na linha de Saúde e Processos Psicossociais. Graduada em
Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Pesquisadora do grupo de pesquisa Centro
de Estudo e Pesquisa da Subjetividade na Amazônia (CEPSAM). E-mail: taciadantas8@gmail.com.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1747502835509365 . Orcid: https://orcid.org/0009-0000-8298-
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with Voices; and (3) The Effects of Speech. In the first axis, it was observed that the
voices varied significantly from one participant to another, not only due to their singular
experiences but also because they were not understood solely within the dimension of
spoken language. In the second axis, art emerged as a fundamental means of possible
symbolic access and social bonding. In the third axis, participants’ feelings regarding
diagnosis were found to vary considerably. Finally, the developments observed within
the group highlight the importance of providing a space that privileges subjects’ speech
and recognizes their own modes of care and coping.
Keywords: psychoanalysis; psychosis; mental health.
Introdução
Historicamente, nas sociedades ocidentais, os manicômios e hospitais
psiquiátricos tinham como principal finalidade isolar os sujeitos que não se adaptavam
à normalidade, os ditos loucos. Com isso, o louco foi retirado da cena social,
compreendido como um ser irracional, tratado como uma ameaça constante para si e
para os outros (Amarante e Torre, 2018). O isolamento, acompanhado de tratamento
médico-psiquiátrico, essencialmente naturalista e biológico, além da violência física,
tinham como efeito a aniquilação progressiva dos direitos humanos e da subjetividade
dos sujeitos.
Nesse contexto, entre 1978 e 1980, no Brasil, surge o movimento social por
uma Reforma Psiquiátrica e Luta Antimanicomial. Tal movimento foi protagonizado e
fomentado por trabalhadores do Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental
(MTSM) indignados com a situação a que os pacientes eram submetidos e com a
acriticidade do saber psiquiátrico daquela época (Amarante, 1995). A partir disso,
foram criados dispositivos através da política pública de saúde mental em
contraposição ao modelo asilar, como o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), com
enfoque no estabelecimento de direitos humanos e sociais, bem como a
ressocialização de indivíduos. O CAPS é um serviço aberto do Sistema Único de
Saúde (SUS), oferecido à comunidade que preconiza o acompanhamento clínico e a
reinserção social de seus usuários e familiares (Brasil, 2004). Neste dispositivo, o
cerne do trabalho é com e para os sujeitos que vivem condições diversas,
potencialmente causadoras de intenso sofrimento psíquico, segundo a política de
saúde mental. Por isso, além das consultas psiquiátricas e oferecimento de
medicações, o CAPS deve ser um espaço que explore a subjetividade de seus
usuários através de oficinas de arte, atendimento grupal e suporte social.
Dentre os sujeitos que são atendidos pelo CAPS estão aqueles que ouvem
vozes. A experiência de ouvir vozes é lida pela psiquiatria tradicional como uma
manifestação de doença/transtorno mental, como a esquizofrenia, diretamente ligada
a sintomas alucinatórios auditivos e/ou verbais. O tratamento de sujeitos
diagnosticados com essa patologia, a partir do discurso médico, tem se restringido a
prescrição de medicamentos a fim de diminuir ou excluir as vozes, não sendo uma
prática recorrente por parte dos profissionais de saúde mental a escuta das vozes por
meio dos sujeitos que as ouvem. Nesse sentido, alternativa ao discurso médico, o
psiquiatra holandês Marius Romme, em 1987, se propôs a escutar o que as vozes dos
seus pacientes diziam, mas não somente na relação médico-paciente e sim entre os
pacientes (Baker, 2016).
Romme organizou os encontros entre seus pacientes que ouviam vozes com o
intuito de que eles compartilhassem suas experiências, bem como o modo que
lidavam com as vozes. A partir desse grupo de ouvidores de vozes, com a ajuda de
pesquisadores e dos próprios pacientes, foi fundada a Intervoice, uma instituição que
fomenta discussões acerca da vivência de ouvir vozes. O objetivo da instituição é
transformar o tratamento dos ouvidores pela psiquiatria e os estigmas colocados pela
sociedade, tendo em vista que essa experiência pode também ser vivenciada e não
ser necessariamente ligada a um transtorno (Baker, 2016). Dessa forma, nessa
perspectiva, ouvir vozes é considerado uma experiência do sujeito vivente, que é
singular a cada um.
O grupo de ouvidores de vozes tem sido implementado em diversos CAPS.
Como pode ser visto no trabalho de Morais, Vinne, Santos e Stefanello (2022), no qual
foram entrevistados sujeitos de três diferentes CAPS que participaram do grupo de
ouvidores de vozes, em que os participantes revelaram os sentidos e efeitos do grupo.
Assim, foi um grande apoio ao tratamento desses sujeitos, pois no grupo era
possibilitado um espaço seguro para falarem das suas experiências com as vozes.
Além disso, com a identificação entre os participantes, houve uma compreensão
coletiva das vivências compartilhadas. Dessa forma, os estigmas sociais que esses
sujeitos carregam eram por um momento dissolvidos, devido ao efeito de acolhimento
e segurança.
Diante disso, a literatura destaca que o grupo de ouvidores de vozes é um
dispositivo que traz ganhos terapêuticos às pessoas que participam, tendo em vista a
proposta em um lugar de escuta e fala do sujeito que ouve vozes. Este trabalho, por
sua vez, objetiva transmitir a experiência e análise da construção do dispositivo clínico
de um grupo de escuta de ouvidores de vozes em um CAPS II na cidade de Porto
Velho, cuja escuta e intervenção foi orientada pela psicanálise, ciência que se ocupa
da palavra do sujeito do inconsciente e sobretudo, o convoca a falar sobre seu saber
que ultrapassa manuais e protocolos psiquiátricos e psicológicos (Abreu, 2008).
Processos metodológicos
A constituição de um dispositivo clínico no CAPS
O projeto de pesquisa “Grupo de escuta de ouvidores de vozes e de seus
familiares: uma proposta de construção de dispositivo clínico em saúde mental” foi
criado com a perspectiva de construção um dispositivo clínico de escuta, orientado
pela psicanálise, de sujeitos atendidos como pacientes de um CAPS II na cidade de
Porto Velho e que passam pela experiência de ouvir vozes.
Por se tratar de uma pesquisa que envolve seres humanos, o projeto foi
previamente submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com o
Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) de número
69625923.6.0000.5300, sendo aprovado conforme o parecer de número 6.170.812.
No início da pesquisa, em agosto de 2023, foi realizada a leitura e análise dos
prontuários, no intuito de identificar sujeitos que passaram pela experiência de ouvir
vozes, bem como o caminho percorrido por eles nos serviços de saúde. Os
profissionais do CAPS também foram consultados no sentido da identificação e do
referenciamento dos pacientes para que pudessem participar do grupo e da pesquisa,
caso desejassem.
Da análise de prontuários, foram selecionados cerca de 60 pacientes para
convidar para os encontros, via telefônica ou whatsapp. Além disso, foi realizado um
diálogo com os psiquiatras por intermédio do psicólogo da instituição, para
encaminhar pacientes que passassem por essa experiência, como também foi
divulgado o grupo com pacientes que estivessem na sala de espera e que
participavam das oficinas de arte, além da confecção de um banner que ficou exposto
na entrada da instituição.
O grupo teve início em novembro de 2023 e finalização em dezembro de 2024,
com encontros semanais realizados em um sala reservada para grupos e oficinas do
CAPS II, com duração média de uma hora e meia. Para participar do grupo foram
estabelecidos os seguintes critérios: 1) ouvir vozes ou ter vivido em algum momento
essa experiência; 2) estar em acompanhamento pelo CAPS; 3) ser familiar de um
sujeito que tem ou passou pela experiência de ouvir vozes. O formato adotado para o
funcionamento do grupo foi aberto e rotativo, no qual não foi exigida permanência e
assiduidade dos sujeitos que participaram. Esse modelo está de acordo com a
orientação psicanalítica, que se baseia na associação livre em que não há um roteiro
a ser seguido e permite melhor manejo da transferência. Dessa forma, o ponto de
partida dos encontros foi a palavra dos sujeitos sob a transferência com os
pesquisadores. Sobre a pesquisa em psicanálise, cabe algumas considerações.
Elia (2000) coloca que a psicanálise levanta dúvidas para a ciência tradicional,
uma vez que em contraposição a esta, o método psicanalítico inclui precisamente o
sujeito no discurso. Sendo que a pesquisa é um campo fundamental da prática
analítica, em decorrência da conexão especial com o sujeito do inconsciente.
Seguindo os princípios de Freud, o mesmo autor traz que o encontro com o sujeito é
sempre o primeiro, ou seja, não um saber prévio, mas sim em construção única
que não pode ser replicável. Isso denota a dimensão do dispositivo clínico da pesquisa
em psicanálise, que acontece pela lógica do saber inconsciente e da transferência.
A posição adotada pelos pesquisadores no dispositivo foi de pesquisante,
cunhado por Elia (2023, p. 226): “[...] condensa os termos pesquisador e analisante,
pois que o pesquisador da psicanálise [...] está, como dissemos, em um lugar
homólogo ao do analisante.”. O pesquisante carrega o desejo de saber e o produz
(Elia, 2023). O dispositivo clínico em psicanálise pode ocorrer em qualquer instituição,
como em hospitais, consultórios e serviços assistenciais. Como esse trabalho foi
constituído no CAPS, é relevante destacar a relação da psicanálise com a saúde
mental.
Junior e Besset (2012) situam na psicanálise nas instituições de saúde mental,
como o CAPS, uma posição subversiva diante de práticas generalistas e protocolares,
de modo que o dispositivo analítico opera pelo imperativo da fala ao sujeito. Lacan
(1953/1998, p. 248) assinala “Quer se pretenda agente de cura, de formação ou de
sondagem, a psicanálise dispõe de apenas um meio: a fala do paciente.”. Fala essa
que é regida pela regra fundamental da psicanálise: a associação livre. O sujeito
enuncia o que lhe vem à cabeça a um profissional orientado pela psicanálise que
escuta aquilo que escapa à lógica da racionalidade, os conteúdos do inconsciente
(Moreira e Kyrillos Neto, 2017). Nessa relação de fala-escuta acontece a
transferência, conceito primordial em psicanálise.
A transferência é a mola do tratamento analítico e convoca aquele que se
propõe em escutar um sujeito, “[...] a ocupar na transferência um lugar do Outro do
sujeito a quem são dirigidas suas demandas [...]” (Quinet, 1991, p. 23). Isto é possível
pela suposição do sujeito de que esse outro sabe daquilo que ele está se queixando,
mas o lugar de quem escuta é de um não-saber. Dessa forma, a técnica psicanalítica
constitui-se na possibilidade do sujeito emergir através de sua rede de significantes,
em sua forma única e peculiar. Essa posição ética não se esgota apenas na relação
clínica entre profissional-paciente, também está no trabalho institucional com
multiprofissionais do serviço articulado com as políticas públicas.
Michels, Machado e Pizzinato (2022) colocam que na saúde mental sustentar
essa prática reside em realizar um tear constante entre várias linhas e fazer furos nos
discursos estabelecidos. Os referidos autores pontuam que o tear psicanalítico é
também um movimento em direção à ética da intersubjetividade, que é construído de
forma coletiva e começa na intersubjetividade entre o psicanalista e o serviço e é
finalizado com os usuários e outros profissionais. Além disso, os autores refletem
ainda que a psicanálise considera a importância em promover a cidadania e garantir
direitos sociais dos indivíduos. No entanto, sua ética está concentrada na política do
desejo do sujeito, ou seja, oferecer um espaço em que o sujeito possa se posicionar
em relação ao próprio desejo e assim ser ativo no seu tratamento.
As experiências de escuta com os sujeitos, os acontecimentos institucionais,
as supervisões com o pesquisador/psicanalista responsável pelo projeto, foram
registrados em um diário clínico a partir da referência de Ferenczi (1990). De acordo
com Silva e Ferrari (2022), o diário clínico não se reduz a uma escrita objetiva e
descritiva, mas engloba um campo pessoal e afetivo do pesquisador. Além disso,
abarca perspectivas o verbais e contextuais dos sujeitos e nesta pesquisa, da
instituição CAPS. A escrita no diário clínico é livre, de forma que não há necessidade
de articulação teórica, se trata da singularidade afetiva da escuta através da
transferência (Silva e Ferrari, 2022).
Foram realizados 30 encontros, nos quais houve a participação de 15
pacientes do CAPS II, no entanto, três desses sujeitos foram mais presentes. A partir
das supervisões e análises do material clínico, transcrito e de acesso exclusivo dos
pesquisadores, foram construídos três eixos de análise: 1) experiências e
características das vozes, 2) estratégias adotadas para conviver com as vozes e 3)
sentidos atribuídos aos cuidados de si e ao CAPS. Os nomes atribuídos aos sujeitos
são fictícios, como forma de proteger sua identidade.
Resultados e discussões
Experiências e características das vozes
No trabalho de divulgação do grupo para os pacientes, quando falávamos sobre
a proposta, as reações eram diversas. Alguns tinham um certo espanto com o nome
do grupo e agradeciam que não atendiam ao critério de ouvir vozes: “graças a Deus
não escuto mais”, “esse problema não tenho, graças a Deus”, são algumas falas.
Outros apenas acolhiam o convite, contavam sua história de vida, sobre o diagnóstico
e as medicações que faziam uso. Outros logo falavam de suas vivências com as
vozes, como Rosário, paciente que se tornou assíduo no grupo. Rosário contou pela
primeira vez (história que foi repetida de diferentes formas no grupo) sua história com
a escuta do som de uma cobra.
Na data marcada para início do grupo, não compareceu nenhum paciente. Na
semana seguinte, tivemos a participação de Rorio. Nas outras semanas,
apareceram um ou dois novos pacientes. Além de Rosário, havia outros dois, Clover
e Jacques, que estavam presentes toda semana. É importante salientar que o grupo
era aberto, realizado sem contratos de frequência estabelecidos, de forma que o fluxo
de pacientes era livre. Como assinalado, a maioria dos encontros aconteceu com
a presença contínua de três pacientes, com os quais aconteceram relações
transferencias, tanto com os pesquisadores quanto com o grupo.
Rosário, que possui diagnóstico de esquizofrenia, tem uma história de vida
permeada de violências e abusos sexuais. Ouve vozes desde criança, que foram se
intensificando com o passar do tempo. Em sua fala, o sujeito traz que sempre escutou
vozes de comando. Quando criança, uma voz mandou para que ele matasse um
calango, a mesma voz em outro período mandou que ele cortasse a corda de uma
rede. O paciente se emociona e fica visivelmente mobilizado quando conta essas
situações e os afetos que lhe causaram. Da adolescência para a vida adulta, ouvia
vozes de comando para cometer suícidio. Um momento marcante foi a vez em que a
voz mandou ele alugar um carro, dirigir na BR e bater em um caminhão para morrer.
Nas situações citadas, o paciente obedecia essa voz, que ele atribui como sendo a
voz do mal. Em um determinado encontro, trouxe que a voz do mal é masculina,
enquanto a voz do bem é feminina. Sobre isso, a voz do bem ele confere a voz da
mãe, que sempre escutou até quando estava viva.
A psicanálise considera que o sujeito psicótico possui um modo próprio de
articulação com a linguagem, com a palavra. Quinet (2021) a partir do ensino de
Lacan, diz que o que particulariza a alucinação de sujeitos psicóticos é o seu caráter
verbal, isto é, quando os significantes são tomados pelo sujeito como vozes. A
expressão dessas vozes decorre “[...] de uma atribuição subjetiva, ou seja, num certo
“eles me dizem que…” [...]” (Quinet, 2021, p. 12). Dessa forma, o autor considera que
a alucinação o está ligada necessariamente a um órgão de sentido e suas
tipificações, como colocado pela psiquiatria tradicional (Dalgalarrondo, 2019). Além
disso, a partir da contribuição do psiquiatra Séglas, Lacan (1955-1956/1988) esclarece
que as alucinações auditivas não são apenas decorrentes do exterior, mas também
do interior do sujeito, o sendo ligada necessariamente à audição. Isso é possível
observar na história dos três sujeitos que foram escutados.
As vozes de comando também fazem parte da vivência de Jacques e Clover,
as quais mandavam o primeiro cometer suicídio e andar para determinado lugar,
assim como na vivência de Clover. Jacques, que tem diagnóstico de bipolaridade,
escuta duas vozes, uma do bem e uma do mal, mas há uma outra voz que está entre
essas duas, imparcial”: a voz da lei. Tal voz é de um procurador que apenas o sujeito
viu quando estava andando na rua. Quando precisa resolver alguma situação
mobilizadora interna, as vozes conversam até o procurador tomar uma decisão para
que assim ele possa fazer. Além disso, as vozes aparecem para auxiliá-lo quando
joga xadrez. Aqui observa-se algo controverso, uma voz que é imparcial, mas que
decide.
Enquanto para Clover, que possui diagnóstico do Transtorno do Espectro
Autista (TEA) e Síndrome de Asperger, relata a escuta de apenas uma voz. Essa que
manda ela ir para outro lugar, mas quando chega se depara com o “nada”.
O verbo se demonstra em outros elementos da vida desses sujeitos, como
Rosário com a história da escuta de uma cobra. Estava deitado em uma rede em sua
cidade natal, no interior do Amazonas, quando escutou uma espécie de assobio:
Eu ouvi esse barulho que a cobra faz quando está perto. Perguntei à minha esposa
se ela tinha ouvido e ela disse “já vai começar com isso de novo?”. Por isso eu digo
que não tenho certeza se isso foi real ou não. Então, eu saí de casa e vi a cobra
enrolada em uma árvore. Voltei para casa e peguei um terçado. Quando me aproximei
da cobra, eu vi que ela me olhou no fundo dos olhos como se dissesse para não matá-
la, mas eu matei.
Nesta experiência, o paciente se emociona na maioria das vezes que a
menciona, dizendo que não queria matá-la, mas matou. Em um dos encontros, o
paciente reflete que essa cobra era seu pai e afirmou: “essa cobra me acompanha.”.
Além disso, ouvia sons de passos fora do seu quarto e no forro de sua casa.
na vivência de Jacques, na primeira vez que ouviu vozes (assim denominada
por ele), escutou sons de pessoas conversando e uma música clássica. Enquanto
Clover, trouxe em diferentes encontros uma experiência marcante em sua história. Ao
realizar a perícia do INSS para receber o auxílio, refere que tiraram muitas fotos dela,
principalmente dos olhos, que em seu relato diz onde é possível detectar o autismo e
a esquizofrenia: “Essas coisas não dão pra ver em ressonância... você me olhando
aqui diz que não tenho nada, mas na foto deles pega”.
Assim, as vozes aqui não são captadas apenas na dimensão da fala, como
geralmente são compreendidas. Para a psicanálise, Muñoz et al. (2011) salientam que
a voz é um campo da linguagem que faz parte dos significantes do sujeito entrelaçado
com o simbólico, que também se apresenta em silêncio, em sons específicos ou
gestos que relacionam-se com aquilo que é inefável para o sujeito. O dispositivo
analítico, portanto, acontece no oferecimento de um lugar para os sujeitos atribuírem
um sentido àquilo que não é (in)compreendido, através de sua rede de significantes.
Outro ponto presente no discurso dos pacientes é sobre a origem das vozes.
Clover, contou que teve interesse em aprender a tecer tricô, mas ninguém próximo
sabia para ensiná-la.
“Quando sentei para fazer o tricô, eu não sei o que aconteceu… não sabia usar
agulhas, mas acho que fui orientada a fazer.”Clover
“Eu sei o que foi! O inconsciente.” Jacques
Jacques acredita que as vozes podem vir do consciente e inconsciente.
Contudo, as vozes do inconsciente se sobressaem. Por isso, a participante conseguiu
tecer o tricô, segundo ele. Quando questionado de onde veio essa visão, diz que
Lacan. “O inconsciente lembra de tudo!”, Jacques diz. Para Rosário, no entanto, a
origem das vozes está articulado com as violência que sofreu quando criança, além
do aspecto hereditário. Enquanto Clover, atribuiu a um dano neurológico causado
por convulsões. Assim, a origem das vozes está articulada com vivências próprias,
mas também com algo que escapa e está fora do sujeito.
Ao escutar esses sujeitos, adotamos a recomendação de Lacan em ser
secretário do alienado. Quinet (2021) refere que essa posição requer que se tome a
literalidade do que o sujeito nos fala, dando atenção ao modo como este se relaciona
com o Outro e com seus significantes, que aqui o saber aqui está enredado em uma
certeza (Souza, 2023). Na transferência com estes sujeitos é exigido do analista uma
delicadeza em manejar esse Outro absoluto que os invade. O trabalho é provocar a
falta no Outro, para que o sujeito possa advir.
Além da medicação: a arte no conviver com as vozes
A arte aparece como uma forma privilegiada de expressão para os sujeitos do
grupo. Antes da consolidação da reforma psiquiátrica, Nise da Silveira já evidenciava
os efeitos expressivos da atividade artística para os sujeitos que possuíam um
diagnóstico psiquiátrico. Por meio da arte é viabilizado expressar afetos que
extravasam o sujeito, o que não é possível de ser nomeado (Silveira, 1992).
A cada encontro, Rosário trazia a história de suas telas, as já pintadas e as que
estavam em processo de pintura. Os assuntos colocados no grupo por outros
participantes eram articulados por ele a algumas de suas telas. Em um encontro
relatou que era atormentado por um palhaço e então a voz sugeriu que ele pintasse o
palhaço: “Eu pinto para que os outros vejam o que eu vejo. Olha, eu fiz isso aqui, ele
existe”. Outro aspecto interessante do processo de pintura desse sujeito, é que as
vozes que sugerem o que colocar na tela. O término de uma tela acontece quando a
voz não sugere mais. O pintar para esse sujeito é descrito como “Uma viagem sem
sair do lugar. Eu fecho os olhos e estou em outro lugar, mas quando pinto não é o que
imaginei, é sempre outra coisa”. Os traços em sua tela são fortes assim como as
cores, as imagens são cruas e explícitas, da mesma forma as alucinações auditivas e
visuais.
No início dos encontros, Clover relatava que gostava de tecer tricô e crochê,
levava para os encontros um cachecol que ela mesma produziu. No decorrer do grupo,
Clover trazia desenhos feitos a lápis, principalmente em formas geométricas e
animais. Seus desenhos provocam uma ilusão de ótica em quem vê, como se fosse
em 3D. Uma produção marcante foi uma tela em tecido com o Mickey e as cores do
autismo, que lhe exigiu tempo e esforço. Quando terminou, levou para o grupo. Clover
sempre trouxe assuntos relativos à matemática, física e lógica para o grupo, refere
que essas ciências estão em tudo, inclusive em suas artes. Como colocado por Souza
(2023) o sujeito psicótico se constrói de acordo com a lacuna de filiação, o que implica
em uma invenção e criatividade própria dos sujeitos. O sujeito traça seus caminhos e
respostas para lidar com o que retorna no real, como as vozes (Soler, 2007). Nesse
sentido, o pintar e a tessitura são formas de construção de um saber original, algo que
possibilita o simbólico.
Assim como Clover, Jacques também se identifica com as mesmas ciências e
é formado em engenharia. Em sua história, o sujeito sempre esteve articulado com os
saberes dessas áreas, principalmente com a física. Jacques refere que sempre gostou
de números e de resolver expressões algébricas. Além disso, possui uma relação
particular com a literatura e a escrita. Em diversos encontros fez referência a autores
como Clarice Lispector e Machado de Assis, sendo que a obra “O Alienista” é a história
de sua vida, segundo o mesmo. Sobre a escrita, o sujeito escreve as coisas que lhe
vem à cabeça a qualquer momento, deixando sempre uma página disponível para
escrever. No grupo, expressou o desejo de escrever um livro de sua vida: “Escrevo
para não esquecer.”.
Laurent (1995) expõe que alguns sujeitos psicóticos possuem um bloco de
notas interno, isto é, ele é seu próprio secretário. No entanto, na transferência com o
analista, é possível surgir o sujeito a partir do esvaziamento do Outro, como
colocado anteriormente. No grupo, a função de secretariado possuiu uma relação
intrínseca com a transferência. Ao nos colocar nessa função, os sujeitos falavam. Na
escrita desses sujeitos, está a lógica própria de seu inconsciente que não é tomada
como ficção/fantasia, mas como uma maneira de distribuição e esvaziamento do gozo,
daquilo que o extravasa (Laurent, 1995). Além disso, Freitas e Bastos (2019)
destacam que para esses sujeitos, o exercício da escrita pode ser um modo de habitar
a linguagem e de socialização.
Outro modo explorado no grupo é a resposta diante do comando das vozes.
Jacques diz que “Eu digo foda-se. Deixo elas falarem.”. Ademais, Jacques relatou que
a voz do mal pediu que ele se jogasse na frente de um caminhão, mas não
obedeceu. Rosário também se recusava ao comando da voz para que ele se matasse.
Dessa forma, são estabelecidos diálogos com as vozes, estratégia colocada como
fundamental por Baker (2016) para que o sujeito tome posição diante de sua vida e
não fique refém das vozes que escuta.
Um ponto importante a ser destacado, é que o principal recurso terapêutico que
costuma ser adotado por médicos é a prescrição medicamentosa. É claro que essa
conduta faz parte do cuidado para com os sujeitos, a problemática é quando essa
prescrição é tomada como um modo privilegiado de tratamento, uma prescrição sem
escuta, que coloca o sujeito em um lugar de objeto. Nessa discussão, vale dizer que
esse tipo de prática decorre de tensões constantes na ciência e no campo da saúde
acerca dos modelos de cuidado, que no campo do discurso possui outro
delineamento. Quinet (2023) coloca que o discurso universitário “[...] o saber é quem
manda, onde é ele o agente do discurso, pois se encontra em um lugar de comando
[...]” (p. 31), é um saber produzido aos moldes do capitalismo em que “[...] a verdade
do sujeito - é rejeitada em prol do mandamento de tudo saber” (Quinet, 2023, p. 31).
Neste contexto, os efeitos da medicalização da vida, que pode ser entendida
como a patologização de expressões da vida, da subjetividade e das formas que o
sujeito tem de lidar com as coisas que os afetam (Gonçalves, Caliman, César, 2021;
Rocha e Cavalcanti, 2014). Na vida dos sujeitos escutados, a arte representa e
significa a vida e seus atravessamentos, revela uma verdade não universalizante - a
verdade do sujeito.
Os efeitos da palavra
O CAPS aparece como um lugar importante na busca de tratamento pelos
sujeitos. Rosário relata que quando criança via soldadinhos de brinquedo subindo as
paredes de sua casa e apontando-lhe arma, por isso tinha medo de dormir à noite.
Quando adulto, tentou realizar um curso de ensino superior, mas não conseguiu: “As
pessoas ficavam dizendo que eu era esquizofrênico.”. Assim, a busca pelo tratamento
em saúde mental aconteceu em 2018 por intermédio de uma companheira amorosa
da época. Quando chegou ao CAPS passou por diversos psiquiatras e refere que
demorou até chegar no diagnóstico de esquizofrenia. O sentimento no sujeito diante
desse diagnóstico foi de desespero, diferentemente de Clover que sentiu alívio.
A esquizofrenia é ainda um estigma social associado à figura do louco
estereotipado, aquele que não tem consciência alguma de si ou do outro, sendo algo
que deve ser evitado e contido (Serpa Junior et al., 2014). Um sujeito, que participou
poucas vezes do grupo, trouxe que “Eu tive diagnóstico de esquizofrenia, agora
evolui para o de bipolaridade.” (grifo meu). A evolução aqui é entendida como
melhora, progressão. No encontro seguido desse dizer, houve um consenso entre os
sujeitos que ter o diagnóstico de esquizofrenia é pior do que ter o de bipolaridade.
Assim, o diagnóstico de esquizofrenia carrega um peso social e histórico, marcado
pela presença de alucinações verbais e visuais que colocam o sujeito em segundo
plano e em desespero.
O diagnóstico de TEA, no entanto, possui outros atravessamentos. A atribuição
desse diagnóstico acontece para todas as idades, sendo que atualmente, para
crianças e adolescentes isso é crescente e para adultos ocorre uma identificação
(Aydos, 2019). Aydos (2019) coloca que o autismo é um espectro altamente
diversificado e que discussões se é considerado uma deficiência ou uma
neurodiversidade, no qual está empreendido que seria “uma maneira diversa de ser e
estar no mundo” (p. 93). A partir disso, surgem movimentos sociais que celebram a
diferença como o “dia do orgulho”, como um modo de se impor contra o preconceito e
políticas capacitistas, além de poder se manifestar para garantir seus direitos (Ortega,
2008). Dessa forma, o autismo possui outra dimensão discursiva e social,
diferentemente da esquizofrenia. É importante ressaltar que nossa intenção aqui não
é demarcar qual diagnóstico é melhor ou pior para se conviver, estamos colocando
que os diagnósticos citados possuem dimensões distintas que têm seus efeitos nos
sujeitos.
Clover sempre relatou no grupo as dificuldades que teve em socializar e
construir vínculos com outras pessoas, desde criança. Por isso, o alívio decorre de
uma possível explicação para tais comportamentos. Além disso, Clover procurou a
rede de saúde mental devido às crises convulsivas, acompanhada de sua mãe. Se
descreve nessa época “Eu era uma pessoa estranha… até aqui no CAPS eu
assustava os médicos, mas é que eu estava sem medicação.”. Em um outro encontro
diz: “As medicações mudam a fisionomia… o olhar. Se eu parar de tomar a medicação,
eu assusto, igual assustei uma médica aqui do CAPS.”. Para esse sujeito, os
remédios provocam um efeito de normalização, mas já relatou que se sente paralisada
sob esses efeitos.
Já para Jacques, os cuidados foram procurados em um momento de crise aos
20 anos, acompanhado de sua mãe: Eu já ouvia minha vizinha dizendo que eu tinha
psicose… [...] cheguei no médico, na primeira consulta ele disse o mesmo, mas mal
conversou comigo e disse ‘é psicose’, mas como vou saber se é psicose mesmo?”. O
sujeito trouxe em vários momentos do grupo que a função do psiquiatra é apenas
passar remédio: “Quem conversa é psicólogo.”. Rosário e Clover possuem o mesmo
entendimento, mas Clover expressa uma certa indignação sobre isso:“Como uma
psiquiatra não quer me escutar? Não é isso que deveria fazer?”.
A fala dos sujeitos explicita a prática psiquiátrica que está voltada para a
descrição dos sintomas, com o objetivo de caber o sujeito em determinado
diagnóstico. Figueiredo e Tenório (2002) refletem que os diagnósticos carregam
uma explicação para determinado sintoma, não havendo espaço para a explicação do
paciente, bem como seus conteúdos e significações. Então o que teria o sujeito a dizer
sobre algo que está posto e enredado pelo saber inquestionável do médico? Para
a psicanálise, tudo. O diagnóstico em psicanálise é estrutural e acontece no fazer-se
falar do sujeito sob transferência, que se atenta a como este se coloca diante do Outro,
seus desejos, formações inconscientes, etc. (Figueiredo e Tenório, 2002).
Sobre o CAPS, os pacientes referem que são gratos pela instituição existir e
pelo tratamento recebido. Jacques diz: “Sem o CAPS eu não teria terminado a
faculdade, nem estaria trabalhando.”. Desde a primeira crise, esse sujeito frequentou
o CAPS de sua cidade natal, participando dos recursos oferecidos pela instituição.
Rosário e Clover também são pacientes assíduos em outras atividades oferecidas
pelo CAPS, principalmente as oficinas de arte. Sobre o grupo dentro do CAPS, os
sujeitos disseram: “Aqui é um refúgio. [...] Me sinto protegido.” “Aqui é um espaço para
falar, fazer amizades…”. Houve diversas situações durante os 30 encontros em que
esses sujeitos diziam: “Eu precisava falar isso, por isso vim aqui hoje com vocês.”.
Esses significantes e afetos foram construídos diante de um trabalho
transferencial que além do secretariado, assumiu uma posição ética, do desejo do
analista, que implica necessariamente em acompanhar, ser testemunha de suas
constituições e em (re)conhecer suas necessidades e potencialidades, com o objetivo
de criar em conjunto um possível laço social. Diferentemente da psiquiatria que
patologiza e privilegia a exclusão das alucinações e delírios, o ofício analítico as
considera como necessárias e parte do sujeito. Ao grupo foi endereçado um lugar de
fala, refúgio e proteção.
Nesse sentido, destacamos a necessidade de dispositivos no CAPS que façam
e possibilitem o sujeito falar em sua singularidade. Apesar do conjunto de sintomas
estabelecidos pela psiquiatria serem comuns aos sujeitos que estão atravessados por
um diagnóstico, as significações destes, são radicalmente diferentes. Admitir essa
diferença, é uma forma de trabalho que pode possibilitar ao sujeito o cuidado em
liberdade e a autonomia.
Considerações finais
Neste trabalho, através da pesquisa em psicanálise, buscamos apresentar e
analisar a construção de um dispositivo clínico em saúde mental situado em um CAPS
da cidade de Porto Velho. O dispositivo construído foi um grupo de escuta de
ouvidores de vozes, no qual participaram 15 pacientes da instituição, mas houve três
sujeitos que permaneceram no grupo de modo contínuo. Nas categorias de análise,
foram exploradas e trazidas discussões acerca dos significados atribuídos pelos
sujeitos a suas vozes e vivências, como também a relevância da transferência em
privilegiar suas falas e posições.
A constituição desse dispositivo clínico na saúde mental, é pertinente para a
implementação e potencialização das políticas existentes, que faz parte do
processo de Reforma Psiquiátrica. Pode-se citar a Política Nacional de Humanização
(PNH, 2003/2013) que aposta em construções coletivas entre trabalhadores, usuários
e familiares, para melhora do serviço de saúde no que tange ao cuidado, que muitas
vezes possuem ações desumanizadoras (Brasil, 2013). Isso se relaciona com os
mecanismos de trabalho multiprofissional, em rede de cuidado, que é feito em
conjunto com o usuário. São necessárias relações horizontalizadas, em que não haja
disputas por um saber, mas um compartilhamento, uma troca ao reconhecer o que o
sujeito sabe sobre seu cuidado, como também considerar suas condições sociais e
econômicas.
Além da PNH, a Clínica Ampliada e Compartilhada propõe uma clínica muito
além da relação médico-paciente e do diagnóstico-tratamento (como se fosse um
modo único de cuidado) (Brasil, 2009). também uma aposta em construções
coletivas que englobam os profissionais, usuários, familiares e o território desses
sujeitos. Essa concepção se articula com os outros artifícios presentes na saúde,
como o Projeto Terapêutico Singular (PTS), um documento que engloba as
especificidades do sujeito e/ou sua família construído com a equipe de saúde que os
acompanha. O PTS ainda não é obrigatório por Lei, mas é uma diretriz importante
para o cuidado de sujeitos que possuem maiores complexidades e complicações,
principalmente na saúde mental. Essas políticas trazem a dimensão da singularidade
do sujeito que é atendido no serviço de saúde, admitindo a necessidade de práticas
mais especializadas, atentas a quem se está atendendo. A escuta, nesse sentido, é
um meio privilegiado de conhecer e compreender as demandas de quem precisa.
A psicanálise, apesar de partir de outra construção teórica, a partir da
concepção de sujeito do inconsciente, que se difere do sujeito da política pública,
contribui a partir desse lugar ético em privilegiar o dizer do sujeito. Assim, o dispositivo
analítico tornou-se um espaço de endereçamento e de construção dos próprios
caminhos dos sujeitos. Na função de secretariado, testemunhamos os caminhos
traçados para lidar com aquilo que os invade de forma peculiar. Dessa forma, o grupo
de escuta de ouvidores de vozes, sustentado pela ética da psicanálise, viabilizou o
reconhecimento do sujeito e de suas invenções como um modo de estabilização e de
construção de um laço social por meio de suas enunciações.
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